12/10/2026
A capacidade de estar só não começa na solidão.
Winnicott propõe um paradoxo: a possibilidade de estar só se constrói na presença de alguém.
Precisamos experimentar uma relação suficientemente segura. Uma presença que sustente nossa existência sem exigir que estejamos o tempo inteiro respondendo ao desejo do outro. Quando essa experiência é satisfatória, algo dessa presença pode ser internalizado e permanecer em nós. Então, a ausência do outro pode ser sustentada, pois há uma confiança na relação, mesmo quando o outro não está fisicamente ali.
Esse ponto nos interessa para pensar nas relações que construímos ao longo da vida.
No amor, na amizade, na família e nos espaços profissionais, estar ausente não significa necessariamente estar desconectado. Podemos nos ocupar de outros interesses, construir novos espaços e até mesmo estar sozinhos, sem que a distância seja vivida imediatamente como uma desconexão.
Mas essa segurança tem uma história. Pressupõe que algo tenha sido construído na relação.
Quando um vínculo começa a se formar, é comum que exista um investimento mais intenso. Queremos estar perto, conversar, conhecer, compartilhar. Há uma intensidade própria de quem ainda está construindo um lugar na vida do outro.
Com o tempo, algo dessa presença pode encontrar lugar dentro de nós. Já não precisamos estar tão perto, nem participar de tudo, para sentir que pertencemos àquela relação.
A ausência não precisa significar perda. Um desencontro não precisa significar rompimento. Uma diferença não precisa colocar todo o vínculo em risco.
A relação passa a suportar algum espaço.
Espaço para novos encontros, interesses e experiências que enriquecem nossa subjetividade.
Particularmente, essa é uma das possibilidades dos vínculos afetivos que mais me emociona: os vínculos que construímos podem nos oferecer segurança para ir além deles. Conquistar novos espaços, sem que cada movimento exija abrir mão do que já existe.
Inevitavelmente, para nos DESenvolvermos, precisamos, antes de tudo, nos envolver.
Estar só deixa de ser solidão quando há uma presença que podemos levar conosco.
helô.