Pedro Maroun - Mastologista

Pedro Maroun - Mastologista Orientação e divulgação de medidas para redução do Câncer de Mama
Dicas para quem está em tratamento
Discussão de Mitos e preconceitos sobre o Câncer

Existe uma expectativa silenciosa de que a mulher com câncer de mama pense apenas em sobreviver. Como se tudo o que diss...
21/05/2026

Existe uma expectativa silenciosa de que a mulher com câncer de mama pense apenas em sobreviver. Como se tudo o que dissesse respeito ao corpo pudesse se tornar secundário diante da doença.

Talvez por isso tantas pacientes ainda sintam culpa ao perguntar sobre cicatriz, reconstrução, simetria ou feminilidade. Como se desejar continuar se reconhecendo no próprio corpo diminuísse a seriedade da experiência que estão vivendo.

Mas essa desvalorização não nasce por acaso. Ela também faz parte de uma longa tradição patriarcal de controle e hierarquização dos corpos femininos. Um sistema que frequentemente ensinou mulheres a suportarem dor, silenciamento e perda como se fossem parte natural do cuidado.

Durante muito tempo, a medicina tratou o câncer de mama priorizando a retirada da doença, sem necessariamente se perguntar o que acontecia com a mulher que continuaria vivendo depois da cirurgia.

E talvez seja impossível ignorar que essa história também foi construída em uma medicina majoritariamente masculina, onde questões ligadas à imagem corporal, sexualidade e identidade feminina foram frequentemente consideradas menores, acessórias ou “emocionais”.

A mastologia mudou muito. Hoje sabemos que segurança oncológica e preocupação estética não são interesses opostos. Em muitas situações, caminham juntas.

Porque resultado corporal não é detalhe.
Frequentemente, é parte da dignidade, da autonomia e da possibilidade de continuar existindo no mundo sem precisar abandonar a própria imagem para provar coragem.

Existe uma assimetria inevitável na medicina.Quem procura cuidado geralmente chega atravessado por medo, dor, urgência o...
19/05/2026

Existe uma assimetria inevitável na medicina.
Quem procura cuidado geralmente chega atravessado por medo, dor, urgência ou exaustão. Quem recebe essa pessoa passou anos aprendendo uma linguagem técnica capaz de transformar imagens, células e probabilidades em raciocínio clínico.

O problema é quando essa diferença de saber passa a ser tratada como algo natural demais.

Como se fosse esperado que pacientes compreendessem instantaneamente termos que os profissionais levaram décadas para aprender.
Como se sair da consulta confuso fosse apenas parte do processo.
Como se perguntar novamente fosse sinal de distração, ansiedade excessiva ou incapacidade de entender.

Não é.

A dificuldade de compreender um laudo não representa falha moral ou intelectual de quem adoece. Ela revela a própria complexidade da medicina e a responsabilidade ética envolvida em traduzi-la.

Talvez por isso eu tenha cada vez mais dificuldade em enxergar explicações como um “extra” da consulta. Explicar um BI-RADS, uma biópsia ou um resultado anatomopatológico não deveria depender da personalidade mais acolhedora de alguns médicos. Isso faz parte do tratamento.

Autonomia não signif**a abandonar alguém diante de um vocabulário técnico e esperar que tome boas decisões sozinho. Autonomia exige compreensão suficiente para que escolhas sobre o próprio corpo e a própria vida possam ser feitas com menos desamparo.

Existe uma violência silenciosa quando o paciente sai da consulta carregando palavras que ainda não consegue sustentar internamente.

Porque um laudo nunca fala apenas sobre células.
Ele reorganiza medos, relações, planos, imagens de futuro e a maneira como alguém passa a enxergar o próprio corpo.

Talvez o cuidado comece justamente aí: no reconhecimento de que a assimetria de saber é responsabilidade de quem cuida manejar com ética, clareza e presença.

Na medicina, quase nada se constrói sozinho.O cuidado nasce da confiança compartilhada, da escuta entre profissionais, d...
15/05/2026

Na medicina, quase nada se constrói sozinho.
O cuidado nasce da confiança compartilhada, da escuta entre profissionais, da tranquilidade de saber que ao seu lado existem pessoas tecnicamente competentes e eticamente comprometidas com a mesma paciente.

Talvez uma das maiores riquezas da vida profissional seja justamente poder escolher com quem caminhar.
Escolher equipes onde o respeito circula com naturalidade, onde o trabalho do outro não ameaça, mas fortalece. Onde a excelência não precisa abrir mão da delicadeza.

Em tempos de vínculos cada vez mais condicionados por limitações administrativas e pelas amarras frequentemente impostas pelos modelos assistenciais dos planos de saúde, reconhecer o privilégio de trabalhar com autonomia e confiança se torna ainda mais importante.

Porque, no fim, a medicina que permanece humana continua sendo aquela construída em conjunto.

Na medicina, registramos diagnósticos, exames, condutas e cirurgias.Mas parte importante da experiência do adoecimento a...
14/05/2026

Na medicina, registramos diagnósticos, exames, condutas e cirurgias.

Mas parte importante da experiência do adoecimento acontece fora dessas linhas.

Há decisões que não aparecem no prontuário.
Contar aos filhos. Voltar ao trabalho. Permitir que alguém cuide. Olhar o próprio corpo depois do tratamento.

O câncer de mama não reorganiza apenas tecidos e protocolos.
Ele modif**a rotinas, relações, imagens de si e modos de habitar o cotidiano.

Nem toda mulher deseja falar sobre isso.
Muitas, porém, sentem alívio quando encontram um espaço em que essas questões podem existir sem julgamento.

Porque cuidado também envolve aquilo que a medicina nem sempre consegue medir.

Avisa que tô de volta 🤩🤌🏼💙🩷🤍
11/05/2026

Avisa que tô de volta 🤩🤌🏼💙🩷🤍

Nem todo Dia das Mães é feito de presença.O imaginário da data costuma organizar a maternidade como continuidade.Presenç...
10/05/2026

Nem todo Dia das Mães é feito de presença.

O imaginário da data costuma organizar a maternidade como continuidade.
Presença que sustenta, cuidado que não falha, corpo disponível.

O câncer de mama desloca essa imagem.

Ele insere a doença em um espaço que não admite interrupção.
Expõe o desencontro entre o que se espera de uma mãe e o que um corpo em tratamento pode oferecer.

A mama, associada ao vínculo e à nutrição, passa a concentrar também a experiência da perda.
Não apenas biológica, mas social, ao tensionar formas reconhecidas de feminilidade e maternidade.

Nem toda experiência encontra linguagem.
Nem toda perda encontra escuta.
Há histórias que circulam com facilidade, enquanto outras permanecem quase inaudíveis, como aponta Debora Diniz, que há algum tempo reflete sobre o que conseguimos, ou não, reconhecer como sofrimento.

Há também a ausência.
Mães que não envelheceram.
Trajetórias abreviadas antes de se tornarem memória estável.

E, quando se observa mais de perto, não é possível sustentar a ideia de acaso.
Alguns corpos encontram o cuidado mais cedo, com mais recursos, com mais tempo.
Outros seguem trajetórias mais incertas, uma desigualdade já amplamente discutida por autoras como Jurema Werneck.

Talvez o ponto mais incômodo seja este: não estamos apenas diante de diferenças.
Estamos diante de formas desiguais de proteção e exposição que organizam quem pode maternar, adoecer e ser cuidado com mais ou menos amparo.

Ampliar o sentido desta data não exige abandonar a celebração.
Mas exige recusar o silêncio sobre aquilo que ela não comporta.

Milão é uma cidade curiosa.Ela transforma desejo em vitrine com uma naturalidade quase teatral.  Grifes, mármore, cafés ...
09/05/2026

Milão é uma cidade curiosa.

Ela transforma desejo em vitrine com uma naturalidade quase teatral.
Grifes, mármore, cafés impecáveis, pessoas vestidas como se o cotidiano fosse uma extensão da passarela.

Existe poder nisso.
E também contradição.

Muitas dessas grandes maisons carregam histórias marcadas por vaidade, exploração, disputas familiares e figuras nem sempre admiráveis. A moda, como quase tudo que envolve prestígio, também nasce de hierarquias, excessos e silêncios.

Ainda assim, a cidade permanece bonita.

Talvez porque a beleza de um lugar nunca seja totalmente pura.
Ela também nasce das ambiguidades humanas que ajudaram a construí-lo.

Milão parece saber disso.
Não tenta ser inocente. Só continua elegante.

Diante das catedrais, galerias e vitrines, a gente aprende que olhar um lugar de forma crítica não diminui o encanto. Talvez até torne tudo mais interessante.

Existe uma expectativa profundamente naturalizada de que mulheres com câncer atravessem o tratamento sem romper demasiad...
08/05/2026

Existe uma expectativa profundamente naturalizada de que mulheres com câncer atravessem o tratamento sem romper demasiadamente a ordem ao redor.

Espera-se, muitas vezes, que suportem o sofrimento com discrição emocional, preservem vínculos, mantenham esperança e continuem reconhecíveis para os outros apesar das mudanças do corpo.

Nem toda violência aparece como imposição explícita.
Algumas operam de forma muito mais silenciosa: na exigência contínua de autocontrole, na obrigação de administrar a dor com elegância, na expectativa de que o adoecimento produza rapidamente aprendizado, resiliência ou superação.

O corpo feminino frequentemente é convocado a permanecer inteligível mesmo quando atravessado pela perda.

Talvez por isso tantas mulheres sintam que precisam tranquilizar familiares, minimizar o próprio cansaço ou converter a experiência do câncer em uma narrativa moralmente inspiradora.

Mas existem sofrimentos que não se organizam dessa maneira.
Existem experiências que não cabem na estética da vitória.
E existem corpos que, antes de voltar a parecer fortes, precisam apenas reencontrar alguma possibilidade de existência menos exaustiva.

Talvez o cuidado mais ético comece justamente aí.
Não na produção de heroínas.
Mas na possibilidade de reconhecer vulnerabilidades sem transformá-las imediatamente em fracasso, lição ou espetáculo.

Talvez parte do desconforto presente nessas experiências tenha relação com aquilo que autoras como Rita Segato, Heleieth Saffioti, Emily Martin e Waleska Aureliano já mostraram há tempos: certos corpos são socialmente convocados a sofrer sem interromper demasiadamente a ordem ao redor.

Cinque Terre parece ter sido inventada por alguém que amava simultaneamente o mar, o vinho e a ideia de caminhar sem pre...
07/05/2026

Cinque Terre parece ter sido inventada por alguém que amava simultaneamente o mar, o vinho e a ideia de caminhar sem pressa.

São cinco vilas penduradas nas montanhas da Ligúria, conectadas por trilhas, pequenos trens e uma certa vocação para o encantamento. Monterosso tem praia e mesas longas de almoço. Vernazza parece cenário montado por um diretor italiano romântico demais. Manarola faz todo mundo acreditar que deveria largar tudo e abrir um bar de vinho olhando o mar.

Entre roupas secando nas janelas, escadarias improváveis e taças de vermentino, a vida aqui parece menos interessada em produtividade e mais comprometida com beleza cotidiana.

Talvez seja isso que torna Cinque Terre tão difícil de explicar.
Não é só sobre paisagem.
É sobre ritmo.

E honestamente, depois de alguns dias aqui, voltar a responder e-mails parece uma escolha meio questionável.

Há mulheres que desejam reconstruir a mama o mais rápido possível.Há mulheres que precisam de tempo antes de decidir.E h...
06/05/2026

Há mulheres que desejam reconstruir a mama o mais rápido possível.
Há mulheres que precisam de tempo antes de decidir.
E há aquelas que descobrem que a reparação do próprio corpo não passa, necessariamente, por reproduzir a anatomia anterior.

Nem sempre falamos sobre isso.

Em torno do câncer de mama, existe uma expectativa silenciosa de retorno.
Retorno à aparência.
À feminilidade reconhecível.
Ao corpo socialmente confortável para os outros.

Como se o sofrimento pudesse ser encerrado quando a cicatriz deixa de ser percebida.

A reconstrução mamária pode ser profundamente potente.
Pode devolver segurança, desejo, intimidade e autoestima.
Mas talvez seja importante separar duas ideias que costumam aparecer como sinônimos: reconstruir e reparar.

Reconstruir diz respeito ao corpo visível.
Reparar envolve também aquilo que não aparece na fotografia: a relação da mulher com o espelho, com a sexualidade, com o toque, com o próprio senso de existência.

Existe um detalhe pouco discutido: algumas mulheres sofrem menos pela ausência da mama do que pela obrigação de parecer “inteiras” rapidamente.

Talvez o cuidado mais sofisticado não seja o que acelera respostas.
Mas o que suporta escutar ambivalências sem transformar todas elas em problema a ser corrigido.

Nem toda cicatriz pede apagamento.
Nem todo corpo deseja voltar a ser o que era antes.

E talvez exista liberdade justamente aí.

Florença tem um certo senso de humor.Você sai pra “dar uma volta” e, quando percebe, está no meio de um cenário que pode...
04/05/2026

Florença tem um certo senso de humor.

Você sai pra “dar uma volta” e, quando percebe, está no meio de um cenário que poderia estar atrás de um vidro…
mas tem alguém comendo um panino, outro discutindo alto, e um terceiro passando bem na frente da sua foto.

O Renascimento aconteceu aqui.
E, claramente, ninguém avisou que era pra parar.

As paisagens são bonitas, claro.
Mas são as pessoas que dão o tom.
Sempre aparece alguém atravessando o enquadramento, como se dissesse
“calma, isso aqui não é só pra você”.

E ainda bem.

Porque Florença não é organizada pra turista perfeito.
É viva, meio caótica, cheia, barulhenta às vezes.
E funciona melhor assim.

Entre uma igreja e outra, você come muito bem.
Sem cerimônia, sem firula, sem culpa.

No fim, a impressão que f**a é simples:
Florença não quer ser contemplada em silêncio.

Ela quer ser vivida —
mesmo que isso inclua estragar algumas fotos.

Endereço

Rua Dona Mariana, Nº 143, Sala D33, Botafogo
Rio De Janeiro, RJ
22280020

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