Dra Camilla Alves

Dra Camilla Alves � Médica pós graduada em psiquiatria e apaixonada por saúde mental.
� Sem saúde mental não há saúde! Cuide da sua!

A presença de tiques costuma gerar grande preocupação em pais, familiares e professores. Não raramente, qualquer movimen...
03/08/2026

A presença de tiques costuma gerar grande preocupação em pais, familiares e professores. Não raramente, qualquer movimento repetitivo ou som involuntário é imediatamente associado à Síndrome de Tourette. No entanto, essa associação é incorreta e pode levar tanto a diagnósticos precipitados quanto a sofrimento desnecessário.
Os tiques são movimentos ou vocalizações involuntários, rápidos e recorrentes. São relativamente frequentes na infância e, muitas vezes, transitórios, desaparecendo espontaneamente ao longo do desenvolvimento.
A Síndrome de Tourette é um transtorno do neurodesenvolvimento com critérios diagnósticos específicos. Além disso, um dos maiores mitos é acreditar que todos os pacientes falam palavrões. A coprolalia ocorre apenas em uma pequena parcela dos casos.
Outro ponto importante é que ansiedade, estresse, fadiga e privação de sono podem aumentar a frequência dos tiques. Isso não significa que sua origem seja psicológica, mas que esses fatores intensificam um transtorno de base neurobiológica.
Também é comum que algumas crianças consigam suprimir os tiques durante a escola e os apresentem com mais intensidade ao chegar em casa. Esse comportamento não é proposital, mas consequência do esforço para contê-los por longos períodos.
Mais do que identificar um sintoma, o papel do psiquiatra é compreender seu contexto, sua evolução e seu impacto na vida da criança. Diagnosticar corretamente evita estigmas, tranquiliza famílias quando necessário e permite indicar tratamento apenas para quem realmente precisa.

Muitas crianças desafiam regras, discutem com os pais e apresentam episódios de irritabilidade ao longo do desenvolvimen...
23/07/2026

Muitas crianças desafiam regras, discutem com os pais e apresentam episódios de irritabilidade ao longo do desenvolvimento. Esses comportamentos, isoladamente, não caracterizam um transtorno psiquiátrico.
O Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) é definido por um padrão persistente de humor irritável, comportamento desafiador e atitudes provocativas direcionadas, principalmente, às figuras de autoridade. Para o diagnóstico, esses sintomas precisam ser frequentes, persistentes e causar prejuízo significativo no funcionamento familiar, escolar ou social.
Na prática clínica, um dos maiores desafios é evitar dois extremos igualmente prejudiciais: atribuir todo comportamento opositor à "falta de limites" ou transformar manifestações esperadas do desenvolvimento em um diagnóstico.
A avaliação psiquiátrica considera a intensidade, a frequência, a duração e o impacto desses comportamentos, além da investigação de condições frequentemente associadas, como TDAH, transtornos de ansiedade, transtornos do neurodesenvolvimento e dificuldades de aprendizagem.
O TOD também repercute de forma importante no ambiente escolar, favorecendo conflitos com professores e colegas, prejuízo acadêmico e dificuldades nas relações interpessoais.
O objetivo do diagnóstico não é rotular a criança nem justificar seus comportamentos. É compreender a origem daquele padrão para que o tratamento seja individualizado, baseado em evidências e capaz de promover melhores desfechos para a criança, sua família e a escola.
Na psiquiatria infantil, compreender o comportamento sempre será mais importante do que julgá-lo.

Muitos transtornos psiquiátricos compartilham sintomas. Por isso, estabelecer um diagnóstico exige muito mais do que ide...
19/07/2026

Muitos transtornos psiquiátricos compartilham sintomas. Por isso, estabelecer um diagnóstico exige muito mais do que identificar uma lista de sinais ou aplicar escalas.
O verdadeiro diagnóstico diferencial consiste em investigar, de forma criteriosa, quais hipóteses explicam melhor aquele conjunto de sintomas, considerando a história de vida, o desenvolvimento, o contexto atual, fatores biológicos e condições clínicas associadas.
Um diagnóstico incorreto pode levar a tratamentos desnecessários, atrasar intervenções realmente eficazes e prolongar o sofrimento do paciente.
Na psiquiatria, precisão diagnóstica não é excesso de cuidado.
É parte fundamental de um tratamento responsável.

Você já conhecia o conceito de diagnóstico diferencial?

Um bom tratamento começa antes da primeira receita: começa com um diagnóstico construído com cuidado.

Vivemos um momento em que os transtornos do neurodesenvolvimento passaram a fazer parte das conversas do dia a dia. Isso...
14/07/2026

Vivemos um momento em que os transtornos do neurodesenvolvimento passaram a fazer parte das conversas do dia a dia. Isso trouxe benefícios importantes: muitas pessoas finalmente encontraram explicação para dificuldades que carregavam desde a infância.
Ao mesmo tempo, aumentou o risco de outro fenômeno: transformar qualquer dificuldade em um diagnóstico.
Na prática clínica, sintomas semelhantes podem surgir por inúmeros motivos. Ansiedade, depressão, trauma, privação de sono, uso excessivo de telas, dificuldades pedagógicas, altas habilidades e outras condições podem se apresentar de forma muito parecida com TDAH ou TEA.
Por isso, um diagnóstico nunca deve ser baseado apenas em uma lista de sintomas. Ele exige tempo, escuta, conhecimento do desenvolvimento, investigação da história clínica, avaliação do funcionamento e exclusão de outras hipóteses.
Existe ainda um segundo problema: pessoas que realmente possuem um transtorno continuam sendo desacreditadas e passam anos ouvindo que lhes falta esforço ou disciplina.
A solução não está em diagnosticar menos nem em diagnosticar mais.
Está em diagnosticar melhor.
Na psiquiatria, um diagnóstico bem feito não é apenas um nome. É o ponto de partida para um tratamento realmente adequado. E isso pode mudar toda a trajetória de uma pessoa.

A maioria das pessoas procura um psiquiatra tarde demais.Não porque demorou para marcar uma consulta.Mas porque demorou ...
14/07/2026

A maioria das pessoas procura um psiquiatra tarde demais.
Não porque demorou para marcar uma consulta.
Mas porque demorou para perceber que saúde mental também merece cuidado antes da crise.
A boa psiquiatria não trata apenas transtornos. Ela ajuda a compreender o sofrimento, preservar o funcionamento e recuperar qualidade de vida.
Esse é um dos maiores equívocos que ainda cercam a nossa especialidade.
E talvez esteja na hora de mudarmos essa forma de enxergá-la.
Se esta reflexão fez sentido para você, talvez ela também faça sentido para alguém que ainda acredita que precisa esperar uma crise para procurar ajuda.

Nem todo trauma começa com um grande acontecimento. Compreender isso é importante para evitar dois extremos: banalizar o...
08/07/2026

Nem todo trauma começa com um grande acontecimento. Compreender isso é importante para evitar dois extremos: banalizar o conceito de trauma ou deixar de reconhecer sofrimentos que realmente merecem atenção.
Na psiquiatria, trauma psicológico não é definido apenas pelo evento vivido, mas pela forma como essa experiência foi processada pelo cérebro e pelo organismo.
Seu impacto depende de fatores como idade, frequência, duração, previsibilidade do ambiente, disponibilidade de figuras de cuidado, sensação de segurança e recursos emocionais naquele momento.
Por isso, duas pessoas podem vivenciar situações semelhantes e desenvolver desfechos completamente diferentes.
Uma infância sem violência física não é, necessariamente, uma infância emocionalmente segura.
Negligência emocional, invalidação constante e ambientes imprevisíveis também podem influenciar o desenvolvimento cerebral.
Quando essas experiências se repetem ao longo da infância, o cérebro pode adaptar seu funcionamento para aumentar as chances de sobrevivência naquele contexto.
Uma dessas adaptações é a hipervigilância: um estado de alerta permanente, em que o organismo permanece monitorando sinais de ameaça, mesmo quando o perigo já não existe.
Na vida adulta, essa resposta pode se manifestar como ansiedade persistente, dificuldade para relaxar, medo intenso de rejeição, necessidade excessiva de controle ou dificuldades nos relacionamentos.
Isso não significa que toda infância difícil resulte em um transtorno mental, nem que todo sofrimento deva ser chamado de trauma.
Na prática psiquiátrica, evitamos tanto a banalização quanto a simplificação. Cada paciente precisa ser avaliado considerando sua história, o contexto das experiências, fatores de proteção e seu funcionamento atual.
Compreender a própria história não serve para encontrar culpados.
Serve para reconhecer adaptações que um dia foram necessárias, mas que hoje podem estar produzindo sofrimento.
E essa compreensão costuma ser um dos primeiros passos para um tratamento verdadeiramente individualizado e baseado em evidências.

Durante esta Copa do Mundo, milhões de pessoas estão sendo expostas, repetidas vezes, a propagandas de apostas esportiva...
30/06/2026

Durante esta Copa do Mundo, milhões de pessoas estão sendo expostas, repetidas vezes, a propagandas de apostas esportivas.
Essa exposição não é apenas uma estratégia de marketing. Ela também merece ser discutida sob a perspectiva da saúde mental.
Na Psiquiatria, sabemos que o comportamento de apostar não é determinado apenas pela possibilidade de ganho financeiro. Ele é fortemente influenciado pelo sistema de recompensa cerebral, por vieses cognitivos e pela repetição constante de estímulos ambientais.
Quanto maior a exposição às propagandas, maior tende a ser a percepção de normalidade daquele comportamento. Para a maioria das pessoas isso não resultará em um transtorno. Entretanto, indivíduos com maior vulnerabilidade — como aqueles com TDAH, impulsividade, transtornos do humor, uso de substâncias ou histórico de outras dependências — podem apresentar um risco significativamente maior de desenvolver perda de controle sobre as apostas.
Transtorno do jogo, jogo patológico ou ludopatia são formas usadas para descrever um problema que, na Psiquiatria, envolve perda de controle sobre o comportamento de apostar.
O transtorno do jogo não é definido pelo valor perdido, mas pela incapacidade progressiva de interromper um comportamento que continua sendo repetido apesar dos prejuízos financeiros, familiares, profissionais e emocionais.
Em muitos casos, a aposta deixa de representar uma tentativa de ganhar dinheiro e passa a funcionar como uma estratégia para aliviar ansiedade, frustração ou sofrimento psíquico.
É por isso que reduzir esse problema à "falta de controle" ou à "ganância" simplifica um transtorno complexo e pode atrasar a busca por tratamento.
Discutir apostas durante a Copa não é discutir futebol.
É discutir um problema de saúde mental que merece ser reconhecido, prevenido e tratado.

Existem muitas formas de medir uma carreira.Os títulos que conquistamos.Os congressos de que participamos.Os artigos que...
27/06/2026

Existem muitas formas de medir uma carreira.
Os títulos que conquistamos.
Os congressos de que participamos.
Os artigos que lemos.
Os pacientes que melhoram.

Mas existem recompensas que não cabem em nenhum currículo.

Ontem recebi este desenho da mãe de um paciente que atendi.
Desde a primeira consulta, ele sempre me pede para contornar o cérebro do papel timbrado da clínica e desenhar. Desta vez, resolveu transformá-lo em um presente para mim.
Quem trabalha com crianças sabe que elas dificilmente demonstram carinho da forma como os adultos fazem.
Elas demonstram através do vínculo.
Através de um desenho.
De um abraço inesperado.
De um sorriso quando entram no consultório.
De um "eu queria que a consulta demorasse mais".
E isso sempre me emociona.
Não porque eu espere esse reconhecimento. Muito pelo contrário.
Mas porque esses pequenos gestos nos lembram que, antes de qualquer diagnóstico, medicação ou protocolo, existe uma relação construída com confiança.
E confiança não se prescreve.
Ela se conquista.
Eu estudo todos os dias para oferecer o melhor tratamento possível aos meus pacientes. A ciência orienta cada decisão que tomo dentro do consultório.
Mas são momentos como este que alimentam algo que a ciência, sozinha, não explica: o sentido da profissão.
Esse desenho provavelmente ficará guardado por muitos anos.
Não pelo papel.
Mas pelo que ele representa.

Que eu nunca deixe de me emocionar quando um paciente me entrega um pedacinho do seu mundo.
Porque, no dia em que isso deixar de tocar meu coração, talvez eu tenha deixado de exercer a psiquiatria da forma como acredito que ela deve ser.

Obrigada à família pela confiança, pelo carinho e pela autorização para compartilhar um momento tão especial. 🤍

(Compartilhado com autorização da responsável, preservando integralmente a identidade do paciente.)

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