14/02/2018
"Conforme terminologia usada por ele, estavam à frente de complexos inconscientes, projetados biopsiquicamente para a esfera objetiva. O estado sonambúlico e a constituição mediúnica deviam ser considerados como a fonte dessas projeções, que tinham de ser qualif**adas de representações de sonho objetivadas, uma vez que nelas agia uma faculdade idioplástica da natureza." (A montanha mágica, p.748)
Do lado esquerdo temos Thomas Mann, o maior expoente do romance humanista alemão; do outro, Jung, o psiquiatra suíço.
E acima temos uma pequena passagem d'A montanha mágica. Nesta, um médico discorre sobre dons precognitivos de uma interna do sanatório de Berghof. Quais as relações entre Jung e Mann? O humanismo deste último está carregado de conceitos psicológicos e de uma compreensão profunda dos substratos psíquicos do homem. Tal passagem exemplif**ada nos faz antever (ancoramo-nos em artigos e outros) que o romancista era familiarizado com a noção de sincronicidade e arquétipo, da psicologia analítica. Em outro momento da narrativa, um jesuíta enfermo também inicia o protagonista Hans Castorp nos conhecimentos da erudição medieval, citando o "lapis philosophorum" como um símbolo para o princípio do refinamento do espírito e personalidade para comunhão com Deus.
James Hillman chega a citar A Montanha Mágica, como uma história emblemática sobre como a alma pode ser experimentada quando se dá a experiência de uma ferida que nos leva para dentro. Sobre a marcha tuberculosa no pulmão de Hans, ele diz: "através do pequeno buraco desta ferida, entra o imenso reino do espírito". Pela doença se expressa o intercâmbio entre corpo e alma, matéria e espírito
Entre outras similaridades e encontros das obras destes grandes pensadores, nos deteremos naquilo que alude a passagem acima. A visão humanista do "vampiro sulamericano" (Jung se referia assim à Thomas Mann - sua mãe era brasileira) nos leva a uma concepção de humano que vai para além da consciência. Galgando degraus até o inconsciente, em consonância com a psicanálise. Mas vai ainda além, trazendo a noção de uma ordenação natural da própria organização da natureza, e, neste ponto, aportando em águas junguianas. Eis um pensamento original do autor, que, servindo-se da boca de um de seus personagens, o jesuíta Naphta, enuncia a ideia extremamente interessante:
de que a doença é um estado de exacerbação da vida, o seu delírio e explosão no qual a exuberância do estado vital mais está presente. Mas seguindo seu raciocínio dialógico, expressa então que a própria vida, em sentido lato é a exacerbação e o estado culminante da matéria, sua expressão última, sua excrescência fantástica. E, chegando ao fim, demonstramos aqui a raiz sincronística de seu pensamento: pois, para o autor, a própria matéria portanto, seria em si a exacerbação do potencial de um vazio, o aparecimento em colapso do vácuo fecundo que se tornou extremo.
A enfermidade (como expressão culminante) é a doença da vida < A vida é a doença da matéria < a matéria é a doença do vazio.
Não é difícil seguir essas linhas até chegamos à noção de psicóide da psicologia analítica. Temos aqui na linguagem poética de Mann uma explicação elegante e simples do mistério psicofísico, no qual, por physis e psyche comungarem de um solo comum, se interpenetram, e, sequer podemos dizer que são os dois lados da mesma moeda, mas, em essência só SÃO. Neste sentido, Mann não expande o modelo humano, levando o humanismo ao cosmos. Mas coloca o cosmos essencial no homem.