07/03/2026
A Espiritualidade e as relações com animais
Algumas pessoas no mundo atual, no que se refere à Espiritualidade – no conceito de que a compreendemos como a instância da transcendência humana ou nos aspectos mais elevados da natureza do homem que, de forma geral, a Psicologia e a própria Organização Mundial da Saúde consideram tudo aquilo que é sagrado para o indivíduo e até mesmo divino – tem afirmado, ou ao menos induzido à crença, que ela exclui, condena ou não aprova a convivência dos homens com os animais.
Em que pese as antigas histórias ou narrativas, que se perdem no passado, sobre o uso ou vínculos estabelecidos entre homens e animais e até mesmo casos de sacrifícios sob justificativas religiosas ou supersticiosas, como são as estórias dos casos de feitiçaria versus gatos pretos, sapos etc., não se pode vincular tais fatos com os comportamentos sociais da atualidade, mesmo porque a Espiritualidade – no conceito a que devemos entendê-la – não se prende ou se vincula à crenças ou conceitos de ordens religiosas. Já que, no que tange a esses dois aspectos citados anteriormente, estamos falando da vivência da Espiritualidade que cada um escolhe para si. Sendo a Espiritualidade uma dimensão do ser humano, muito mais ampla e complexa.
As ideias desenvolvidas ao longo do tempo, por inúmeros pensadores no âmbito das mais diversas correntes, tanto filosóficas como sociológicas ou mesmo psicológicas, nos apontam para uma outra direção ou realidade, visto que os animais de modo geral e, em particular, os ditos domésticos, são compreendidos como seres naturais que devem coparticiparem da existência humana de forma pacífica e harmoniosa, inclusive colaborando até mesmo para o aperfeiçoamento humano, no que diz respeito às relações sociais e afetivas, visto – por exemplo – o emprego de determinados animais em alguns significativos processos terapêuticos que auxiliam os desenvolvimentos físicos, mentais e emocionais de crianças e adultos e, ainda, especialmente quando não, servem de apoio, auxílio e até mesmo de guias nos casos de deficiências orgânicas ou colaboram em processos de recuperações de pacientes em instituições médicas.
O que a Espiritualidade – como uma verdadeira corrente de pensamento - nos alerta se refere sobre os malefícios que a transferência ou dedicação de sentimentos exacerbados aos animais, ou mesmo o estabelecimento ou adoção de determinadas formas de convivências, que chegam ao ponto de escravizar ou mesmo submeter o homem a comportamentos que colocam os animais em um nível mais elevado do que sua própria natureza, a ponto de lhes conferir sentimentos e cuidados que são específicos do ser humano, como até mesmo certo grau de parentesco ou considerações e respeito que ultrapassam os limites da boa convivência social e submetem os cuidadores a comportamentos que acabam por condicioná-los ou, quando não, impedi-los também de uma convivência pacífica socialmente em ambientes de agrupamentos humanos. Sendo que em alguns casos, canalizam para os animais uma energia que, na verdade, deveria ser direcionada a humanos, pois somente com a convivência e experiências vividas no vínculo e troca de afeto com as pessoas é que se pode exercer e desenvolver realmente toda as características humanas.
A Espiritualidade, sob seus diversos aspectos ou mesmo práticas que podem incluir ou não, também, caráter de religiosidade, certamente não condena a convivência com os animais, já que ela tem por princípio básico o que pode ser considerado o caráter mais elevado do ser humano, que se fundamenta em conceitos éticos e até mesmo morais. O que ela inspira e orienta é, sim, a busca harmoniosa de um comportamento que estabeleça ou dite as normais de relações verdadeiramente sadias e independentes entre as espécies. Ou seja, um comportamento contrário ao que vem se observando na sociedade humana, atualmente, e que, certamente, é estimulado por interesses comerciais ou até mesmo políticos do mundo atual, de maneira muito sutil, e que acabam por condicionar a comportamentos de submissões e até mesmo escravizantes, em determinadas situações, a ponto de muitas pessoas afirmarem literalmente que preferem o convívio com os animais do que com seus semelhantes.
A Espiritualidade, a princípio, defende a necessidade de se buscar compreender e mesmo respeitar não só os animais, mas, de forma geral, a própria Natureza e afirma que este é um comportamento louvável e que revela um dos aspectos mais sensíveis e elevados da própria natureza humana que deve inspirar, também, o homem a cuidar e proteger cada vez mais todas as formas e espécies de vida do Planeta. Porém, lembramos que o ser humano, desde que nasce, depende de outro ser humano para sobreviver, necessitando desse outro ser, seu igual, para ser cuidado, alimentado, amado e inspirado ao desenvolvimento de seu potencial inato.
Vale lembrar que, no passado, muitas civilizações próximas de seus desaparecimentos, também, exaltaram as relações entre humanos e animais e, de alguma forma, acabaram por se perder em suas crenças, a ponto de impingir a determinadas espécies qualidades ou características divinas e até mesmo levar para suas tumbas os seus animais de estimação, rompendo assim, sob a ótica da religião por exemplo, a sacralidade dos ambientes que eram preservados pelas tradições. E com esse comportamento se afastaram de si próprios e de seus semelhantes e das relações com eles o que os afastou dos preceitos básicos que deveriam ser cultuados e praticados para a evolução da Alma Humana o que só pode se dar na relação de do Ser Humano com o seu igual.
Ferrari – Quaresma de 2026 - SJC