27/08/2026
Uma poesia feita pelo meu amigo para começar bem o seu dia ✨
Algumas pílulas
Nascemos inteiros.
Depois vieram os comprimidos.
Um para dormir sem sonhar,
outro para acordar sem cansaço,
um para suportar a segunda-feira,
outro para desejar a sexta,
um para que o coração bata menos,
outro para que a vida doa menos,
outro ainda para que não percebamos
que alguma coisa em nós
continua doendo.
Vivemos num mundo líquido:
os amores escorrem,
os empregos evaporam,
as certezas vencem na prateleira,
as amizades piscam numa tela
e desaparecem quando mudamos de aparelho.
Só as bulas permanecem.
Elas conhecem nossos órgãos
melhor que muitos amantes:
sabem do fígado,
dos rins,
da pressão,
da insônia,
do medo,
daquilo que não devemos misturar
com álcool, silêncio ou abandono.
Na cozinha, ao lado do café,
uma pequena farmácia doméstica
organiza a fragilidade humana
por horários.
Oito horas: esperança.
Meio-dia: equilíbrio.
Dezoito: controle.
Antes de dormir: esquecimento.
E chamamos saúde
a essa delicada engenharia
de continuar funcionando.
Não desprezo as pílulas.
Algumas salvaram homens
que a natureza abandonaria cedo demais.
Algumas devolveram manhãs
a quem atravessava noites intermináveis.
Algumas fizeram o sangue obedecer,
o coração encontrar compasso,
a dor recuar alguns centímetros
para que alguém pudesse novamente
amarrar os sapatos
e sair de casa.
Bendita seja a ciência
quando diminui o sofrimento.
Mas existe uma doença
que nenhuma molécula alcança:
a pressa.
Existe uma febre
que nenhum termômetro registra:
a necessidade de parecer bem.
Existe uma epidemia sem prontuário:
milhões de pessoas dizendo
“estou ótimo”
enquanto engolem água
para fazer descer
aquilo que as mantém de pé.
Talvez tenhamos confundido saúde
com desempenho.
Queremos o corpo produtivo,
o rosto descansado,
o desejo disponível,
o humor administrável,
a tristeza breve,
o luto eficiente.
Até a dor precisa cumprir prazo.