27/08/2026
Dizem por aí que o psicólogo clínico trabalha com a palavra.Mas isso é um equívoco.
Nós trabalhamos, na verdade, com o avesso dela. Nós vivemos da escuta. E exercer a escuta clínica... é habitar, todos os dias, um território feito de dor e de delícia.
Existe uma dor bonita, mas pesada no nosso ofício. A dor de silenciar o próprio ego para que a verdade do outro possa nascer. É aquilo de sustentar aquele silêncio denso do consultório, quando não existem respostas prontas. É carregar o eco de histórias difíceis no corpo, mesmo… mesmo depois que a sessão termina. É a solidão velada de testemunhar abismos... sabendo que a nossa função não é pular lá dentro para salvar ninguém, mas… é meio que segurar a lanterna para que o outro aprenda a caminhar.
Mas a delícia...Ahhh… A delícia é o que nos mantém aqui!
É o privilégio absoluto de receber o que o ser humano tem de mais sagrado e íntimo. De ver aquele instante mágico em que o sofrimento ganha um nome, ganha um contorno, e deixa de esmagar o peito, a mente. É a delícia de testemunhar o parto de uma nova narrativa… Ver quem chegou como vítima da própria história, sair como autor dela. É a cura pelo encontro. Entre duas existências.
Nesses 19 anos como profissional da psicologia eu entendi que SER PSICÓLOGA é equilibrar-se nessa corda bamba. Sendo forte o suficiente para suportar o peso do mundo do outro... e ao mesmo tempo poroso para se emocionar com ele.
Neste Dia do Psicólogo, eu não celebro apenas a nossa capacidade de dar orientações. Eu celebro a nossa coragem de oferecer uma presença real e cuidadosa. Parabéns a todos vocês, psicos, a todos nós, que fazemos da nossa escuta...
o ABRIGO DE ALGUÉM!
E um obrigada especial a todos que me confiam este abrigo💛