02/04/2021
Autismo : a voz das mães
*Cristiane Dias Salvadori
O dia 02 de abril é considerado Dia Mundial da Conscientização do Autismo. Nesta data não venho falar sobre o transtorno do espectro autista (TEA), suas características ou tratamentos mais indicados. Quero, sim, refletir sobre os desafios que vivem as mães dos autistas.
Ao longo desses 20 anos que trabalho na área Clínica e Educacional, pude escutar dezenas de mães sobre suas angustias, desde a peregrinação por vários especialistas em busca do diagnóstico até a confirmação da referida hipótese.
A trajetória dos sentimentos, do processo de luto pela perda do filho ideal, até a aceitação do filho real, é uma longa jornada. Trata-se de mudar a rota no meio da viagem! Viagem essa, que passa a ser marcada por muitas dúvidas e inseguranças: “Quando ele aprenderá a falar? Como será quando entrar na escola? Na vida adulta, terá seu trabalho e sua família?”
Escutar as mães de autistas é perceber o transbordamento da culpa e da dor narcísica: “O que eu fiz de errado?” Muitas vezes, essas mães percebem-se sozinhas nessa viagem ao mundo azul, vivenciando diariamente a dor do preconceito, da exclusão e da incompreensão. Na tentativa de proteger os seus filhos das maldades e dificuldades do mundo, dedicam-se exclusivamente aos cuidados e necessidades deles, não conseguindo mais olhar para si enquanto sujeito que tem os seus desejos e necessita de uma vida para além da maternidade. Desta forma, carregam temores sobre quem cuidará dos seus filhos quando elas não estiverem mais por perto. A mala das mães autistas para essa viagem ao mundo azul é carregada de todas essas dores e temores.
Sendo assim, se faz necessário a criação de espaços que deem voz aos sentimentos dessas mães, que elas possam abrir as suas malas! Cuidá-las através da escuta atenta é promover o fortalecimento de laços afetivos mais saudáveis com seus filhos para que assim possam seguir suas viagens, contando com a companhia de outros passageiros.
*Psicóloga/ Psicanalista