24/11/2021
Sabe aquela preguiça de levantar de manhã, quando uma espiadinha no Instagram se transforma em horas e horas rolando a tela? Ou a vontade de assistir pela enésima vez à comédia romântica que você conhece de cor, só para não ter que escolher um novo filme? Tem tido dificuldade para se concentrar? Começa alguma atividade e, quando dá por si, esquece o que estava fazendo? Você pode estar languishingO termo em inglês significa “definhamento”, embora alguns especialistas brasileiros prefiram “à deriva” ou “apagamento”. Ficou popular a partir de abril, quando o psicólogo e escritor norte-americano Adam Grant resolveu usá-lo para descrever como se sentia: em vez de pular da cama às 6h como de costume, passou a preferir ficar deitado por mais uma hora, jogando Words with Friends no celular. Mesmo com a perspectiva da vacinação, não se animava com o novo ano. Não era burnout nem ansiedade, pois ele ainda tinha energia. Também não era depressão, porque se mantinha esperançoso. Era languishing.
A conclusão veio em um texto publicado no início de maio no jornal The New York Times e que viralizou. Cunhada pelo sociólogo e psicólogo Corey Keyes no início dos anos 2000, a palavra é perfeita para descrever o estado esquisito em que Grant estava. Languishing, descreveu o autor, é essa sensação de estagnação e vazio. É como se você estivesse levando os dias sem entusiasmo, olhando para a própria vida através de um vidro embaçado. “E essa pode ser a emoção dominante de 2021”, concluiu.
Como descobriu posteriormente, muitos de seus amigos compartilhavam do sentimento, assim como os leitores do jornal novaiorquino, que desde então não param de comentar sobre o quanto se identificaram com a descrição. “Muito útil. Não estou deprimido. Às vezes gostaria de estar, porque conheço isso [a depressão] bem e sei o que fazer. Esse tal de ‘languishing’ é um território desconhecido para mim”, comentou um leitor no início de junho. Desde o início da pandemia, especialistas esperavam um aumento nos transtornos de humor. Um ano depois, veio a confirmação: quase metade da população mundial considera que a saúde mental piorou no último ano. Segundo dados levantados pelo Ipsos no estudo One Year of Covid-19 (Um Ano de Covid-19), feito em 30 países e divulgado em abril, 53% dos brasileiros observaram mudanças negativas em seu emocional. O país não só ficou em quinto lugar entre os que mais sentiram as consequências, como foi o sétimo onde a população mais notou um agravo no mal-estar desde o começo de 2021.E o índice de infelicidade, que é o resultado da soma das taxas de inflação e desemprego, atingiu no primeiro trimestre o pior patamar em cinco anos, conforme aponta um levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).
É como se, antes mesmo da pandemia, já tivéssemos uma população com um grau de sofrimento psíquico que a tornou indiferente à crise. “A pessoa que temColetivizar o sofrimento, deixando que outros saibam como você se sente, seria uma das maneiras de lidar com a crise. “Não vejo saída para nenhum sofrimento da pandemia que não seja coletiva”, atesta Coimbra. “As pessoas precisam construir uma rede de indivíduos com quem possam conversar sobre o que estão vivendo para não minimizar, não negar e não deslegitimar o que estão sentindo.” languishing perde o mecanismo de conexão social. Como esperar que alguém com tamanha apatia acate medidas para proteger o outro?”