23/07/2026
Nos dias acelerados em que vivemos observamos um aumento dos distúrbios e das perturbações do sono. As exigências excessivas por desempenho e produtividade, conectividade e extroversão, vêm interferindo nos ritmos naturais do organismo, dificultando a capacidade para 'ficar off' por um tempo.
Antigamente certos ritos sagrados orientavam a vida cotidiana. Era comum, em comunidades fora do circuito urbano, ao término de um dia de trabalho, a reunião ao redor do fogo para contar histórias, cantar cantigas, fazer preces… Havia, portanto, uma conexão maior com a espiritualidade, a natureza e os instintos. E por que o sono sagrado, os sonhos, as emoções e as comunicações inconscientes vêm perdendo força em nossa cultura? Quando foi que nos distanciamos desses hábitos ancestrais tão elementares?
Por mais que os indutores de sono ou sedativos sejam indicados em algumas situações, é preciso evitar o uso indiscriminado. Sabemos que apenas eliminar ou mascarar os sintomas, sem mergulhar a fundo nas origens e nas complexidades do problema pode trazer efeitos colaterais indesejados a longo prazo. Cada sintoma revela um desbalanceamento e a necessidade de estabelecer ajustes no eixo mente-corpo. Ignorar sistematicamente esses sinais, ou recusar as transformações necessárias, pode colocar-nos numa posição arriscada.
Na Grécia Antiga a relação entre corpo e psique era indissociável. Os sonhos eram centrais nos rituais terapêuticos. Os peregrinos chegavam ao santuário esperançosos para o restabelecimento de sua saúde. O abaton, em Epidauro (santuário dedicado a Asclépio, deus da medicina), era destinado ao tratamento pelo sono. Nos rituais de incubação, os convidados dormiam no interior dos recintos sagrados à espera do sonho revelador ou das manifestações das entidades de cura. Os pacientes registravam os sonhos e pagavam taxas em agradecimento à intercessão dos deuses. Além do sono sagrado, os processos restaurativos incluiam banhos, jejuns, oferendas, música, poesia... Como uma catarse moviam as emoções e despertavam a alma. A terapia junguiana recoloca o sonho em destaque no resgate de antigas tradições.
📔 MEIER, C.A. Sonho e ritual de cura. Paulus, 1999
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