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Há noites que chegam sem avisar.E, quando a escuridão nos surpreende, inventamos maneiras de não sentir medo. Acendemos ...
02/10/2026

Há noites que chegam sem avisar.

E, quando a escuridão nos surpreende, inventamos maneiras de não sentir medo. Acendemos certezas, ocupamos o silêncio, procuramos explicações.

Às vezes, cantamos alto — não porque conhecemos o caminho, mas porque precisamos acreditar que o desconhecido não nos assusta.

Mas cantar no escuro não faz a noite desaparecer.

Há coisas que só podem ser encontradas quando consentimos em não enxergar tudo.

A angústia talvez seja justamente isso: o instante em que as antigas certezas deixam de iluminar o caminho e somos convocados a caminhar sem a garantia de saber aonde iremos chegar.

Na análise, não se trata de acender imediatamente uma luz sobre aquilo que nos inquieta.

Trata-se de permanecer um pouco na penumbra.

Escutar os silêncios.

Acompanhar as palavras que tropeçam.

Perceber aquilo que retorna.

Dar atenção ao que, tantas vezes, tentamos calar.
Porque nem toda escuridão precisa ser vencida.

Algumas precisam ser atravessadas.

E talvez amadurecer não seja finalmente aprender a enxergar muito longe, mas descobrir que podemos caminhar mesmo quando a vida nos permite ver apenas um palmo adiante do nariz.

Às vezes, é tudo o que precisamos para continuar.

E é nesse pequeno espaço iluminado diante de nós que, pouco a pouco, o caminho começa a aparecer.

O que é ser normal?O sujeito “normal” é aquele que se adapta tão bem que já não se interroga.Não sofre porque está em co...
30/09/2026

O que é ser normal?

O sujeito “normal” é aquele que se adapta tão bem que já não se interroga.

Não sofre porque está em conflito com o próprio desejo, mas porque aprendeu a silenciá-lo.

E talvez seja justamente aí que esteja o perigo: quando o sofrimento deixa de produzir perguntas e passa a ser incorporado como modo de vida.

A Psicanálise não existe para adaptar o sujeito a uma ideia de normalidade.

Ela começa, muitas vezes, quando alguma coisa em nós se recusa a continuar funcionando como sempre.

Um sintoma pode incomodar.

Uma angústia pode desorganizar.

Uma pergunta pode tirar o chão.

Mas há algo de profundamente vivo nisso.

Porque enquanto alguém ainda pode perguntar “por que continuo fazendo isso?”, existe a possibilidade de que sua história não precise permanecer condenada à repetição.

Há algo em nós que não se deixa apreender inteiramente pelo que pensamos saber sobre nós mesmos.O sujeito não é transpar...
28/09/2026

Há algo em nós que não se deixa apreender inteiramente pelo que pensamos saber sobre nós mesmos.

O sujeito não é transparente a si próprio: há uma dimensão inconsciente que insiste, retorna, tropeça nas palavras e, muitas vezes, se revela justamente onde acreditávamos ter pleno domínio.

É por isso que precisamos do outro.
Não de alguém que nos ofereça respostas sobre quem somos, mas de alguém que sustente uma escuta capaz de acolher aquilo que ainda não sabemos dizer.

Na análise, fala-se para um outro — mas, no movimento da própria fala, algo do sujeito começa a se escutar.
Um lapso.
Uma repetição.
Uma contradição.
Um silêncio.

Uma escolha que insiste em se repetir, apesar de toda a consciência de que “não era isso que eu queria”.

É nesse ponto que a escuta analítica se torna uma experiência singular: não se trata de descobrir uma verdade escondida que alguém possui e nos revelará, mas suportar descobrir que nunca fomos inteiramente aquilo que imaginávamos ser.

Há uma diferença entre atravessar o medo e fingir que ele não existe.Às vezes, transformamos nossa própria vida em uma t...
10/09/2026

Há uma diferença entre atravessar o medo e fingir que ele não existe.

Às vezes, transformamos nossa própria vida em uma tentativa permanente de não sentir.

Ocupamos todos os espaços com trabalho.
Preenchemos o silêncio com palavras.

Mantemos relacionamentos que já terminaram por dentro.

Dizemos “está tudo bem” justamente quando alguma coisa em nós pede para ser escutada.
É como cantar no escuro.

O canto pode trazer algum conforto.
Pode até nos ajudar a continuar caminhando.
Mas não ilumina necessariamente o caminho.

Na Psicanálise, o objetivo não é eliminar o medo com frases de efeito, nem obrigar o sujeito a ser corajoso.

É poder perguntar:

O que exatamente me assusta?
O que estou evitando encontrar?
E por que preciso permanecer tão ocupada para não ouvir o que sinto?

Porque negar o medo pode nos manter em movimento.
Mas somente reconhecê-lo pode nos permitir escolher para onde queremos ir.

Talvez a coragem não seja parar de ter medo.
Talvez seja conseguir caminhar sem precisar cantar o tempo inteiro para não ouvi-lo.

Nem todo barulho é vida. Às vezes, é apenas uma forma sofisticada de não escutar o silêncio.

Há coisas que chegam à nossa vida sem perguntar se estamos preparados.Uma perda.Um encontro.Uma palavra.Um desejo que pr...
04/09/2026

Há coisas que chegam à nossa vida sem perguntar se estamos preparados.

Uma perda.
Um encontro.
Uma palavra.

Um desejo que preferíamos não reconhecer.
Tentamos, muitas vezes, fechar as cortinas.

Controlar o que sentimos.
Organizar cuidadosamente o que pode ou não entrar.

Mas o inconsciente não respeita portas fechadas.
Aquilo que foi recalcado encontra frestas.

O desejo aparece onde não deveria.
Uma lembrança retorna sem aviso.
Um sonho interrompe a noite.
Um sintoma fala justamente quando acreditávamos estar em silêncio.

Talvez amadurecer não seja aprender a controlar todos os ventos.

Talvez seja descobrir o que se movimenta dentro de nós quando eles chegam.

A análise não procura expulsar o vento.
Procura escutar o que ele deslocou.

Porque, às vezes, aquilo que entra sem pedir licença não veio para destruir a nossa casa.

Veio para revelar que havia algo dentro dela que precisava ser visto.

O que tem entrado na sua vida sem pedir licença?

Talvez uma das coisas mais difíceis de aceitar seja esta: não existe rascunho da vida.Há escolhas que não podemos desfaz...
01/09/2026

Talvez uma das coisas mais difíceis de aceitar seja esta: não existe rascunho da vida.

Há escolhas que não podemos desfazer.
Palavras que não conseguimos recolher.
Pessoas que partem.

Versões de nós mesmos que já não existem.
E, diante disso, podemos passar anos tentando apagar o que fomos.

Reescrevendo mentalmente conversas.
Imaginando outros caminhos.

Perguntando: “E se eu tivesse feito diferente?”
Mas a Psicanálise nos convida a uma outra relação com o passado.

Não para apagar o que aconteceu, mas para descobrir o que ainda fazemos com aquilo que aconteceu.

Porque uma experiência não precisa desaparecer para deixar de nos governar.

O passado não pode ser apagado.
Mas pode ser ressignificado.

Talvez seja essa uma das tarefas mais profundas de uma análise: perceber que não podemos voltar ao início do desenho, mas podemos deixar de repetir, compulsivamente, os mesmos traços.

Não há borracha.
Mas há elaboração.

E talvez amadurecer seja justamente aprender a continuar desenhando — sem exigir que a vida tenha ficado perfeita para podermos amá-la.

Às vezes, o sofrimento não aparece como algo que queremos eliminar.Ele se torna familiar.A pessoa repete os mesmos tipos...
27/08/2026

Às vezes, o sofrimento não aparece como algo que queremos eliminar.

Ele se torna familiar.

A pessoa repete os mesmos tipos de relacionamento, escolhe caminhos que a fazem sofrer, adia o que deseja, se cobra até a exaustão, foge quando algo começa a dar certo — e, ainda assim, tudo isso pode parecer estranhamente conhecido.

O sintoma, na Psicanálise, não é apenas aquilo que incomoda.

Ele também pode ser uma solução.

Uma maneira que o sujeito encontrou, em algum momento, para lidar com aquilo que não conseguiu simbolizar de outra forma.

Por isso, mudar nem sempre é simplesmente querer melhorar.

Às vezes, é abrir mão de uma forma de viver que, embora dolorosa, oferece alguma espécie de segurança.

A análise começa a ganhar outro sentido quando a pergunta deixa de ser:

“Como faço para parar de sofrer?”
e passa a ser:

“Por que continuo escolhendo, repetindo e sustentando aquilo que me faz sofrer?”

Não se trata de eliminar o sintoma a qualquer custo.

Trata-se de escutá-lo.

Porque aquilo que se repete talvez esteja tentando dizer alguma coisa que ainda não encontrou palavras.

E quando o sintoma deixa de ser confortável, pode começar uma investigação sobre o desejo.

O desejo, muitas vezes, nasce daquilo que imaginamos sobre alguém.Amamos uma imagem, uma promessa, uma possibilidade.Na ...
25/08/2026

O desejo, muitas vezes, nasce daquilo que imaginamos sobre alguém.

Amamos uma imagem, uma promessa, uma possibilidade.

Na fantasia, o outro pode ser exatamente aquilo que precisamos que ele seja.

Mas o amor começa a ser colocado à prova quando a fantasia encontra a pessoa real.
Quando aparecem os defeitos.

As diferenças.
Os limites.
Os dias difíceis.

Aquilo que não corresponde às nossas expectativas.

É nesse encontro que uma pergunta incômoda pode surgir:

Você ama quem o outro é ou aquilo que precisa que ele seja?

Na perspectiva psicanalítica, amar não significa encontrar alguém que complete perfeitamente a nossa falta.

Significa suportar que o outro não existe para ocupar o lugar que imaginamos para ele.

Talvez uma das formas mais maduras de amor seja justamente esta: deixar o outro existir sem precisar transformá-lo em personagem da nossa fantasia.

E talvez seja aí que o amor se torne menos perfeito — e mais verdadeiro.

Às vezes, o passado não permanece porque foi intenso.Permanece porque nunca pôde ser simbolizado.A infância não é um tri...
14/08/2026

Às vezes, o passado não permanece porque foi intenso.

Permanece porque nunca pôde ser simbolizado.
A infância não é um tribunal onde buscamos culpados.

É o lugar onde muitos dos nossos modos de desejar, amar, temer e sofrer começaram a ganhar forma.

Na clínica, não perguntamos apenas "o que aconteceu?".

Perguntamos: "Como isso continua acontecendo dentro de você?"

Porque aquilo que não encontra palavras encontra repetição.

Talvez o relacionamento que sempre termina da mesma maneira, a necessidade de agradar a todos, o medo de ser abandonada ou a culpa que nunca passa não sejam apenas características da sua personalidade.

Podem ser capítulos de uma história que insiste em ser contada.

A psicanálise não muda o passado.
Mas pode transformar a maneira como ele continua escrevendo o seu presente.

Controlar o outro...vigiar...agradar...seduzir...não são provas de amor.São tentativas desesperadas de garantir aquilo q...
13/08/2026

Controlar o outro...
vigiar...
agradar...
seduzir...
não são provas de amor.

São tentativas desesperadas de garantir aquilo que, por definição, nunca pode ser garantido.

O amor sempre contém um risco.

Quem tenta eliminar esse risco acaba eliminando também o encontro.

Lacan afirmava que o amor nasce da falta, não da completude.

O desejo só se mantém vivo porque algo escapa, porque o outro nunca pode ser totalmente conhecido ou possuído.

A tentativa de controlar o parceiro costuma ser uma tentativa de calar a própria angústia diante dessa impossibilidade.

Mas um amor sem risco deixa de ser encontro entre dois sujeitos e transforma-se em administração da ansiedade.

O paradoxo é que, quanto mais alguém tenta garantir o amor, maiores são as chances de sufocá-lo.

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