02/10/2026
Há noites que chegam sem avisar.
E, quando a escuridão nos surpreende, inventamos maneiras de não sentir medo. Acendemos certezas, ocupamos o silêncio, procuramos explicações.
Às vezes, cantamos alto — não porque conhecemos o caminho, mas porque precisamos acreditar que o desconhecido não nos assusta.
Mas cantar no escuro não faz a noite desaparecer.
Há coisas que só podem ser encontradas quando consentimos em não enxergar tudo.
A angústia talvez seja justamente isso: o instante em que as antigas certezas deixam de iluminar o caminho e somos convocados a caminhar sem a garantia de saber aonde iremos chegar.
Na análise, não se trata de acender imediatamente uma luz sobre aquilo que nos inquieta.
Trata-se de permanecer um pouco na penumbra.
Escutar os silêncios.
Acompanhar as palavras que tropeçam.
Perceber aquilo que retorna.
Dar atenção ao que, tantas vezes, tentamos calar.
Porque nem toda escuridão precisa ser vencida.
Algumas precisam ser atravessadas.
E talvez amadurecer não seja finalmente aprender a enxergar muito longe, mas descobrir que podemos caminhar mesmo quando a vida nos permite ver apenas um palmo adiante do nariz.
Às vezes, é tudo o que precisamos para continuar.
E é nesse pequeno espaço iluminado diante de nós que, pouco a pouco, o caminho começa a aparecer.