11/01/2023
“Na minha época eu apanhava e hoje não sou traumatizado”. A convicção é tamanha que impossibilita a reflexão do interlocutor, que acaba por reproduzir o comportamento assistido na própria infância à seus pequenos, como se esta fosse a única solução possível.
Mas o que não é levado em consideração é que a tal 'palmada', independente de sua intensidade e frequência, é um ato de violência. Ela tem a desculpa da imposiçao do limite com intuito educativo, mas o que aprendemos quando apanhamos? E será mesmo que esta forma de 'educar' não deixa as suas marcas em nossa personalidade?
Ao educarmos os nossos filhos na base da palmada o que passamos é: você me frustou e eu, ao não saber lidar com esse sentimento, o expresso através do físico, já que o psicológico pode ser demasiadamente frágil para tanto.
Desta forma apresentamos as nossas crianças o seguinte padrão comportamental: me feriu, não fez o que eu quero, me desrespeitou, não respondeu as minhas expectativas...a pancada é a solução. E a criança, quando diante quaisquer situações que exijam dela a flexibilidade e a compreensão, por não ter recebido estas em sua base de criação, encontra na agressividade a única forma de alívio para tal.
O fato de considerarmos normal a palmada é um reflexo do quanto a violência esta banalizada em nossa cultura. Acreditamos que é ela a melhor forma de 'educar', mas ficamos perplexos quando nos deparamos com atos violentos, a ponto de questionar o ponto que chegou a nossa sociedade.
Não é a imposição do limite que questiono, pelo contrário, acredito que a instrução seja necessária. Mas aponto para a forma como a fazemos. Se ao invés do apelo físico utilizássemos o dialógo, daríamos uma base mais compreensiva e flexível para as futuras gerações, de forma a contribuir para um modelo de sociedade pautada no respeito e dignidade.
Ao oferecermos a possibilidade da conversa, a fim de compreender a intenção ou mesmo a lógica do comportamento apresentado por nossos filhos, abrimos espaço para a reflexão e com isso os resultados podem ser muito mais satisfatórios. 'A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota' (Jean Sartre)...