28/08/2026
Há muitos anos, fiz uma escolha.
E é uma escolha que continuo fazendo.
Escolhi uma profissão que me permite estar com pessoas quando a vida dói. Estar perto quando uma perda rompe o mundo conhecido, quando faltam palavras, quando é preciso encontrar maneiras de seguir vivendo sem aquilo, ou aquele, que não pode mais estar como antes.
Ao longo desses anos, acompanhei muitas histórias de luto. E aprendi que cuidar não é retirar a dor do outro, nem apressar caminhos. É oferecer presença, escuta e conhecimento para que cada pessoa possa encontrar, no seu tempo e à sua maneira, formas possíveis de atravessar aquilo que vive.
Mas minha escolha pela Psicologia também me levou a outro lugar que se tornou profundamente importante para mim: formar pessoas que cuidam de pessoas.
Foram muitos profissionais ao longo dessa caminhada. Em salas de aula, supervisões, grupos de estudo, encontros e tantas conversas, procurei compartilhar mais do que conhecimentos sobre perdas e lutos.
Procurei transmitir a responsabilidade que existe quando alguém nos confia sua dor.
Porque técnica importa. Conhecimento importa. Estudar profundamente importa.
Mas importa também compreender que, diante de nós, há sempre uma pessoa, com uma história, vínculos, afetos, recursos, limites e um modo singular de viver aquilo que lhe aconteceu.
Quando olho para tantos profissionais que passaram por minha trajetória e que hoje seguem cuidando de outras pessoas, percebo que há algo do cuidado que se multiplica.
E penso que seja uma das partes mais bonitas dessa escolha que fiz há tantos anos:
ter cuidado de muitas pessoas e, ao mesmo tempo, ter ajudado a formar tantas outras para que o cuidado pudesse continuar chegando ainda mais longe.
E continuo escolhendo.
A Psicologia.
O estudo.
O encontro.
A presença.
E, sobretudo, a responsabilidade de estar com o outro quando a vida pede cuidado.