27/06/2026
Há lugares que o tempo não consegue transformar em passado.
Ontem tive a oportunidade de voltar à Faculdade de Medicina da USP, a nossa querida Casa de Arnaldo. Fazia mais de uma década que eu não percorria aqueles corredores. Bastaram poucos minutos para perceber que algumas casas nunca deixam de ser nossas.
A Medicina tem uma característica curiosa. Chamamos de residência o período mais intenso da nossa formação. Não é por acaso. Durante esses anos, a faculdade e o hospital deixam de ser apenas locais de estudo e trabalho. Tornam-se um lar. Ganhamos uma nova família, compartilhamos alegrias, angústias, noites em claro e aprendizados que levamos para a vida.
Talvez por isso exista tanto orgulho em dizer que alguém é um “Filho de Arnaldo” ou perguntar se um colega é “da Casa de Arnaldo”. Mais do que uma instituição, ela forma uma identidade.
Acompanhei o Professor Van der Zee, uma das maiores referências mundiais em hidradenite supurativa, em uma visita à nossa Dermatologia. Visitamos o extraordinário museu ceroplástico, assistimos aos alunos em uma prova prática — que continua despertando o mesmo frio na barriga da minha época — e participamos de uma tarde de discussões científicas em altíssimo nível, organizada pela Professora Maria Cecília Rivitti. Foi também uma alegria reencontrar a Professora Valéria Aoki, a Rosilda, o Professor Romiti e tantos colegas.
Em determinado momento, nos perdemos pelos corredores do Hospital das Clínicas. E eu me perdi nas lembranças.
Foi ali que me tornei médico.
Aprendi com mestres extraordinários, colegas brilhantes e pacientes que confiaram à instituição os casos mais complexos. Ali compreendi que a excelência não está apenas na ciência produzida, mas principalmente nas pessoas que ensinam, aprendem e cuidam.
Voltar depois de tantos anos foi reencontrar uma parte de mim que sempre permaneceu ali.
Obrigado, Casa de Arnaldo.
Muito do médico que sou hoje foi forjado entre esses corredores.
Vida longa à Faculdade de Medicina da USP.