Dra. Polianna Souza

Dra. Polianna Souza CRM/SP109226.

Médica geriatra pela UNIFESP, formação em Cuidados Paliativos pela Asociacion Pallium Latinoamerica e em Oncogeriatria pela SIOG, área de atuação em Dor pela AMB e administradora do site Oncogeriatria Brasil.

Uma conduta pode estar tecnicamente bem indicada e, ainda assim, ser inviável na rotina da pessoa idosa.É fora do consul...
07/08/2026

Uma conduta pode estar tecnicamente bem indicada e, ainda assim, ser inviável na rotina da pessoa idosa.

É fora do consultório que aparecem perguntas decisivas: ela consegue chegar ao serviço? Entendeu como usar os medicamentos? Tem força para preparar uma refeição? Há alguém disponível quando surge uma intercorrência? O tratamento preserva alguma organização do cotidiano ou passa a ocupar toda a vida?

Essas questões não são periféricas. Elas interferem em adesão, segurança, funcionalidade e continuidade do cuidado.

A Diretriz Brasileira de Oncogeriatria reforça que a decisão terapêutica deve considerar funcionalidade, comorbidades, cognição, nutrição, suporte social e as condições reais para sustentar o tratamento. A ASCO também recomenda avaliar vulnerabilidades que a consulta oncológica habitual pode não captar.

No Brasil, o Ministério da Saúde orienta o cuidado da pessoa idosa a partir da capacidade funcional, do contexto de vida, do suporte social e dos recursos disponíveis no território.

Conhecer o que acontece nas outras 719 horas não é assumir sozinho todos os problemas. É evitar que o plano seja construído para uma rotina que não existe.

Qual dificuldade fora do consultório mais costuma comprometer um tratamento que parecia viável?

Nem sempre a pergunta mais importante é “qual tratamento oferecer?”.Em muitos casos, a decisão muda quando perguntamos o...
05/08/2026

Nem sempre a pergunta mais importante é “qual tratamento oferecer?”.

Em muitos casos, a decisão muda quando perguntamos o que o paciente não quer perder, o que ainda lhe dá prazer e o que considera qualidade de vida.

No artigo, trago essa reflexão a partir de um caso composto, inspirado na prática clínica, para mostrar como perguntas melhores podem conduzir a decisões mais coerentes com a vida de cada pessoa.

Artigo completo no meu LinkedIn (link na bio do Instagram).

A frase “é normal da idade” pode parecer uma explicação clínica. Em alguns casos, porém, ela apenas encerra cedo demais ...
03/08/2026

A frase “é normal da idade” pode parecer uma explicação clínica. Em alguns casos, porém, ela apenas encerra cedo demais uma investigação que ainda precisava começar.

O envelhecimento é heterogêneo. Não existe uma trajetória única que torne tosse persistente, falta de ar progressiva, perda de peso não intencional, cansaço incapacitante ou dor nova automaticamente esperados.

No contexto do Agosto Branco, esse cuidado ganha ainda mais relevância. O INCA inclui tosse persistente, falta de ar, perda de peso e dores entre os sinais que podem aparecer no câncer de pulmão. Esses sintomas têm várias causas possíveis e não significam, isoladamente, câncer. Mas persistência, progressão e mudança em relação ao estado habitual merecem avaliação clínica.

O risco está nos dois extremos: investigar indiscriminadamente ou não investigar porque a pessoa é idosa. O caminho responsável é considerar duração, intensidade, repercussão funcional, fatores de risco, contexto e preferências da própria pessoa.

A OMS reforça que não existe uma pessoa idosa “típica” e que o etarismo pode prejudicar a saúde e a qualidade do cuidado. O Ministério da Saúde também orienta uma leitura que considere funcionalidade, contexto de vida e suporte social.

Nem tudo o que acompanha o envelhecimento pertence a ele.

Na sua prática, qual sintoma mais costuma ser atribuído à idade antes de receber a devida investigação?

Autonomia não significa fazer tudo sozinho.Uma pessoa idosa pode precisar de apoio para se deslocar, compreender informa...
31/07/2026

Autonomia não significa fazer tudo sozinho.

Uma pessoa idosa pode precisar de apoio para se deslocar, compreender informações, organizar medicamentos ou participar de uma consulta, e ainda assim manter o direito de expressar preferências, fazer escolhas e participar das decisões sobre o próprio cuidado.

A perda de autonomia também pode começar em atitudes aparentemente protetoras: responder antes que ela termine, decidir o que pode ser contado, falar apenas com o acompanhante ou presumir incapacidade sem avaliá-la.

Quase sempre há preocupação por trás dessas atitudes. Mas existe uma diferença importante entre apoiar uma decisão e substituir a pessoa idosa nela.

Preservar a autonomia possível exige adaptar a conversa, oferecer tempo, confirmar compreensão e reconhecer as capacidades que continuam preservadas. O Estatuto da Pessoa Idosa assegura liberdade, respeito e dignidade, enquanto a OMS defende um cuidado integrado e centrado nas necessidades, circunstâncias, valores e objetivos da pessoa.

Na prática clínica, isso melhora o vínculo, qualifica as decisões e mantém a pessoa idosa no centro do tratamento, mesmo quando ela precisa de suporte.

Em que situação você mais percebe a proteção começando a ocupar o lugar da autonomia?

Uma refeição aparentemente simples pode exigir muito da pessoa idosa com câncer.É preciso ter energia, força para se sen...
29/07/2026

Uma refeição aparentemente simples pode exigir muito da pessoa idosa com câncer.

É preciso ter energia, força para se sentar e permanecer à mesa, coordenação para usar os talheres, disposição para mastigar e suporte para comprar, preparar ou servir os alimentos. Quando uma dessas condições muda, a ingestão pode cair antes mesmo que exista uma queixa clara de dificuldade para mastigar ou engolir.

Por isso, comer menos não deveria ser interpretado apenas como falta de apetite. Pode ser fadiga, dor, perda funcional, sofrimento emocional, isolamento ou efeito acumulado do tratamento.

Diretrizes de oncogeriatria incluem nutrição, funcionalidade, saúde emocional e suporte social entre os domínios que precisam ser avaliados na pessoa idosa com câncer. Isso ajuda a lembrar que a alimentação não depende apenas da cavidade oral ou da deglutição: ela também revela o quanto a pessoa ainda consegue sustentar no cotidiano.

No contexto do Julho Verde, ampliar esse olhar é especialmente importante. Alterações relacionadas aos tumores de cabeça e pescoço podem repercutir diretamente na alimentação, mas a leitura clínica não deve parar no sintoma local.

Na sua prática, qual mudança durante as refeições mais costuma mostrar que a condição global da pessoa idosa já mudou?

Exames laboratoriais e de imagem são fundamentais. O risco começa quando eles deixam de apoiar a consulta e passam a con...
27/07/2026

Exames laboratoriais e de imagem são fundamentais. O risco começa quando eles deixam de apoiar a consulta e passam a conduzi-la sozinhos.

Um laudo pode mostrar resposta, estabilidade ou progressão. Mas não mostra, por si só, como a pessoa idosa está vivendo: se perdeu autonomia, se ainda sustenta a rotina, se compreendeu o plano ou se o objetivo do tratamento continua fazendo sentido para ela.

Na oncogeriatria, essas informações não são complementos subjetivos. Funcionalidade, cognição, nutrição, suporte social, vulnerabilidades e preferências ajudam a definir risco, viabilidade e direção terapêutica. Diretrizes atuais reforçam que a avaliação oncológica habitual não capta sozinha todos os elementos necessários para individualizar o cuidado da pessoa idosa com câncer.

O Ministério da Saúde também orienta o cuidado da pessoa idosa pela avaliação multidimensional, pela capacidade funcional e pela preservação da autonomia — não apenas pela presença de diagnósticos.

O exame conta uma parte indispensável da história.
A consulta precisa descobrir o restante.

Você já teve a sensação de que a pessoa estava desaparecendo atrás dos resultados?

Na prática, grandes complicações raramente aparecem sem aviso.Antes da piora mais evidente, muitas vezes surgem mudanças...
24/07/2026

Na prática, grandes complicações raramente aparecem sem aviso.

Antes da piora mais evidente, muitas vezes surgem mudanças pequenas na alimentação, na comunicação, no comportamento, no ritmo e na capacidade de sustentar tarefas simples do dia. Isoladamente, elas podem parecer banais. Mas, no conjunto, costumam antecipar perda funcional, sofrimento emocional, comprometimento nutricional, declínio cognitivo ou progressão de fragilidade.

Diretrizes atuais da ASCO recomendam que a avaliação da pessoa idosa com câncer incorpore domínios que a avaliação oncológica habitual muitas vezes não capta, incluindo função física, cognição, saúde emocional, nutrição e suporte social. A diretriz brasileira da SBGG vai na mesma direção ao reforçar a centralidade da funcionalidade e das síndromes geriátricas na tomada de decisão. E o Ministério da Saúde organiza o cuidado da pessoa idosa a partir da capacidade funcional e da avaliação multidimensional.

No consultório, isso muda a escuta. Porque, antes de uma grande piora, o caso quase sempre já começou a mudar em detalhes que pareciam pequenos demais para merecer peso clínico.

Na sua prática, qual frase aparentemente simples mais costuma acender alerta antes de uma complicação maior?

O exame mostra estabilidade, mas o paciente está mais frágil, dependente e com dificuldade para se recuperar entre os ci...
23/07/2026

O exame mostra estabilidade, mas o paciente está mais frágil, dependente e com dificuldade para se recuperar entre os ciclos.

No artigo, explico por que resposta tumoral e evolução clínica nem sempre seguem a mesma trajetória, e como funcionalidade, cognição e reserva fisiológica ajudam a compreender o que está acontecendo.

Artigo completo no meu LinkedIn (link na bio do Instagram).

20/07/2026

Na prática, alguns casos deixam isso muito claro: o problema raramente está em um diagnóstico isolado.

Câncer, diabetes, sarcopenia, neuropatia, fragilidade, menos reserva fisiológica, mais risco de perda funcional. Cada elemento, sozinho, pode até parecer manejável. O que muda o caso é a forma como eles se somam, se potencializam e estreitam a margem clínica daquela pessoa idosa.

É justamente aí que o raciocínio muda. Porque decidir bem nem sempre depende de perguntar qual doença é “a principal”. Muitas vezes, depende de reconhecer qual combinação está determinando mais risco, mais limitação e menos tolerância ao tratamento.

Na oncogeriatria, parte da maturidade clínica está em perceber quando o caso deixou de ser sobre um diagnóstico a mais e passou a ser sobre a interação entre várias vulnerabilidades ao mesmo tempo.

Na sua prática, qual combinação clínica mais costuma desafiar você?

O exame pode vir “estável” e, mesmo assim, o paciente estar claramente diferente.No artigo que publiquei no LinkedIn, eu...
17/07/2026

O exame pode vir “estável” e, mesmo assim, o paciente estar claramente diferente.

No artigo que publiquei no LinkedIn, eu falo sobre esse desafio na oncogeriatria: quando a imagem não mostra progressão evidente, mas aparecem perda funcional, piora cognitiva, fragilidade e queda de qualidade de vida.

A ideia é ampliar o olhar sem criar oposição entre clínica e imagem porque o exame mostra o tumor, e a consulta mostra o paciente.

Artigo completo no meu LinkedIn (link na bio do Instagram).

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