Dra. Polianna Souza

Dra. Polianna Souza CRM/SP109226.

Médica geriatra pela UNIFESP, formação em Cuidados Paliativos pela Asociacion Pallium Latinoamerica e em Oncogeriatria pela SIOG, área de atuação em Dor pela AMB e administradora do site Oncogeriatria Brasil.

A frase “é normal da idade” pode parecer uma explicação clínica. Em alguns casos, porém, ela apenas encerra cedo demais ...
03/08/2026

A frase “é normal da idade” pode parecer uma explicação clínica. Em alguns casos, porém, ela apenas encerra cedo demais uma investigação que ainda precisava começar.

O envelhecimento é heterogêneo. Não existe uma trajetória única que torne tosse persistente, falta de ar progressiva, perda de peso não intencional, cansaço incapacitante ou dor nova automaticamente esperados.

No contexto do Agosto Branco, esse cuidado ganha ainda mais relevância. O INCA inclui tosse persistente, falta de ar, perda de peso e dores entre os sinais que podem aparecer no câncer de pulmão. Esses sintomas têm várias causas possíveis e não significam, isoladamente, câncer. Mas persistência, progressão e mudança em relação ao estado habitual merecem avaliação clínica.

O risco está nos dois extremos: investigar indiscriminadamente ou não investigar porque a pessoa é idosa. O caminho responsável é considerar duração, intensidade, repercussão funcional, fatores de risco, contexto e preferências da própria pessoa.

A OMS reforça que não existe uma pessoa idosa “típica” e que o etarismo pode prejudicar a saúde e a qualidade do cuidado. O Ministério da Saúde também orienta uma leitura que considere funcionalidade, contexto de vida e suporte social.

Nem tudo o que acompanha o envelhecimento pertence a ele.

Na sua prática, qual sintoma mais costuma ser atribuído à idade antes de receber a devida investigação?

Autonomia não significa fazer tudo sozinho.Uma pessoa idosa pode precisar de apoio para se deslocar, compreender informa...
31/07/2026

Autonomia não significa fazer tudo sozinho.

Uma pessoa idosa pode precisar de apoio para se deslocar, compreender informações, organizar medicamentos ou participar de uma consulta, e ainda assim manter o direito de expressar preferências, fazer escolhas e participar das decisões sobre o próprio cuidado.

A perda de autonomia também pode começar em atitudes aparentemente protetoras: responder antes que ela termine, decidir o que pode ser contado, falar apenas com o acompanhante ou presumir incapacidade sem avaliá-la.

Quase sempre há preocupação por trás dessas atitudes. Mas existe uma diferença importante entre apoiar uma decisão e substituir a pessoa idosa nela.

Preservar a autonomia possível exige adaptar a conversa, oferecer tempo, confirmar compreensão e reconhecer as capacidades que continuam preservadas. O Estatuto da Pessoa Idosa assegura liberdade, respeito e dignidade, enquanto a OMS defende um cuidado integrado e centrado nas necessidades, circunstâncias, valores e objetivos da pessoa.

Na prática clínica, isso melhora o vínculo, qualifica as decisões e mantém a pessoa idosa no centro do tratamento, mesmo quando ela precisa de suporte.

Em que situação você mais percebe a proteção começando a ocupar o lugar da autonomia?

Uma refeição aparentemente simples pode exigir muito da pessoa idosa com câncer.É preciso ter energia, força para se sen...
29/07/2026

Uma refeição aparentemente simples pode exigir muito da pessoa idosa com câncer.

É preciso ter energia, força para se sentar e permanecer à mesa, coordenação para usar os talheres, disposição para mastigar e suporte para comprar, preparar ou servir os alimentos. Quando uma dessas condições muda, a ingestão pode cair antes mesmo que exista uma queixa clara de dificuldade para mastigar ou engolir.

Por isso, comer menos não deveria ser interpretado apenas como falta de apetite. Pode ser fadiga, dor, perda funcional, sofrimento emocional, isolamento ou efeito acumulado do tratamento.

Diretrizes de oncogeriatria incluem nutrição, funcionalidade, saúde emocional e suporte social entre os domínios que precisam ser avaliados na pessoa idosa com câncer. Isso ajuda a lembrar que a alimentação não depende apenas da cavidade oral ou da deglutição: ela também revela o quanto a pessoa ainda consegue sustentar no cotidiano.

No contexto do Julho Verde, ampliar esse olhar é especialmente importante. Alterações relacionadas aos tumores de cabeça e pescoço podem repercutir diretamente na alimentação, mas a leitura clínica não deve parar no sintoma local.

Na sua prática, qual mudança durante as refeições mais costuma mostrar que a condição global da pessoa idosa já mudou?

Exames laboratoriais e de imagem são fundamentais. O risco começa quando eles deixam de apoiar a consulta e passam a con...
27/07/2026

Exames laboratoriais e de imagem são fundamentais. O risco começa quando eles deixam de apoiar a consulta e passam a conduzi-la sozinhos.

Um laudo pode mostrar resposta, estabilidade ou progressão. Mas não mostra, por si só, como a pessoa idosa está vivendo: se perdeu autonomia, se ainda sustenta a rotina, se compreendeu o plano ou se o objetivo do tratamento continua fazendo sentido para ela.

Na oncogeriatria, essas informações não são complementos subjetivos. Funcionalidade, cognição, nutrição, suporte social, vulnerabilidades e preferências ajudam a definir risco, viabilidade e direção terapêutica. Diretrizes atuais reforçam que a avaliação oncológica habitual não capta sozinha todos os elementos necessários para individualizar o cuidado da pessoa idosa com câncer.

O Ministério da Saúde também orienta o cuidado da pessoa idosa pela avaliação multidimensional, pela capacidade funcional e pela preservação da autonomia — não apenas pela presença de diagnósticos.

O exame conta uma parte indispensável da história.
A consulta precisa descobrir o restante.

Você já teve a sensação de que a pessoa estava desaparecendo atrás dos resultados?

Na prática, grandes complicações raramente aparecem sem aviso.Antes da piora mais evidente, muitas vezes surgem mudanças...
24/07/2026

Na prática, grandes complicações raramente aparecem sem aviso.

Antes da piora mais evidente, muitas vezes surgem mudanças pequenas na alimentação, na comunicação, no comportamento, no ritmo e na capacidade de sustentar tarefas simples do dia. Isoladamente, elas podem parecer banais. Mas, no conjunto, costumam antecipar perda funcional, sofrimento emocional, comprometimento nutricional, declínio cognitivo ou progressão de fragilidade.

Diretrizes atuais da ASCO recomendam que a avaliação da pessoa idosa com câncer incorpore domínios que a avaliação oncológica habitual muitas vezes não capta, incluindo função física, cognição, saúde emocional, nutrição e suporte social. A diretriz brasileira da SBGG vai na mesma direção ao reforçar a centralidade da funcionalidade e das síndromes geriátricas na tomada de decisão. E o Ministério da Saúde organiza o cuidado da pessoa idosa a partir da capacidade funcional e da avaliação multidimensional.

No consultório, isso muda a escuta. Porque, antes de uma grande piora, o caso quase sempre já começou a mudar em detalhes que pareciam pequenos demais para merecer peso clínico.

Na sua prática, qual frase aparentemente simples mais costuma acender alerta antes de uma complicação maior?

O exame mostra estabilidade, mas o paciente está mais frágil, dependente e com dificuldade para se recuperar entre os ci...
23/07/2026

O exame mostra estabilidade, mas o paciente está mais frágil, dependente e com dificuldade para se recuperar entre os ciclos.

No artigo, explico por que resposta tumoral e evolução clínica nem sempre seguem a mesma trajetória, e como funcionalidade, cognição e reserva fisiológica ajudam a compreender o que está acontecendo.

Artigo completo no meu LinkedIn (link na bio do Instagram).

20/07/2026

Na prática, alguns casos deixam isso muito claro: o problema raramente está em um diagnóstico isolado.

Câncer, diabetes, sarcopenia, neuropatia, fragilidade, menos reserva fisiológica, mais risco de perda funcional. Cada elemento, sozinho, pode até parecer manejável. O que muda o caso é a forma como eles se somam, se potencializam e estreitam a margem clínica daquela pessoa idosa.

É justamente aí que o raciocínio muda. Porque decidir bem nem sempre depende de perguntar qual doença é “a principal”. Muitas vezes, depende de reconhecer qual combinação está determinando mais risco, mais limitação e menos tolerância ao tratamento.

Na oncogeriatria, parte da maturidade clínica está em perceber quando o caso deixou de ser sobre um diagnóstico a mais e passou a ser sobre a interação entre várias vulnerabilidades ao mesmo tempo.

Na sua prática, qual combinação clínica mais costuma desafiar você?

O exame pode vir “estável” e, mesmo assim, o paciente estar claramente diferente.No artigo que publiquei no LinkedIn, eu...
17/07/2026

O exame pode vir “estável” e, mesmo assim, o paciente estar claramente diferente.

No artigo que publiquei no LinkedIn, eu falo sobre esse desafio na oncogeriatria: quando a imagem não mostra progressão evidente, mas aparecem perda funcional, piora cognitiva, fragilidade e queda de qualidade de vida.

A ideia é ampliar o olhar sem criar oposição entre clínica e imagem porque o exame mostra o tumor, e a consulta mostra o paciente.

Artigo completo no meu LinkedIn (link na bio do Instagram).

Nem toda falta à consulta começa como desorganização, desinteresse ou “baixa adesão”.Na pessoa idosa com câncer, ausênci...
15/07/2026

Nem toda falta à consulta começa como desorganização, desinteresse ou “baixa adesão”.

Na pessoa idosa com câncer, ausências repetidas podem ser um modo silencioso de mostrar que o tratamento deixou de caber do jeito que estava proposto. Às vezes, o que aparece como falta é o ponto final de um acúmulo: perda funcional, cansaço persistente, sofrimento emocional, medo, dependência para sair de casa, sobrecarga do cuidador, dificuldade com transporte ou simplesmente menos margem para seguir sustentando a rotina do cuidado.

Esse tipo de leitura importa porque a avaliação oncológica isolada nem sempre capta cedo o que já está mudando no percurso real do tratamento. Diretrizes da ASCO recomendam avaliar função física, saúde emocional, cognição, comorbidades, nutrição e suporte social em pessoas idosas com câncer. A diretriz brasileira da SBGG e a linha de cuidado do Ministério da Saúde também colocam capacidade funcional e contexto como eixos da decisão clínica.

Na prática, faltar consulta pode ser menos um problema de agenda e mais um sinal de que a proposta precisa ser revista à luz da vida real.

Na sua experiência, qual pista mais costuma mostrar que a ausência está dizendo mais do que parece?

No cuidado da pessoa idosa com câncer, anemia raramente é apenas um número no exame.Muitas vezes, ela chega acompanhada ...
13/07/2026

No cuidado da pessoa idosa com câncer, anemia raramente é apenas um número no exame.

Muitas vezes, ela chega acompanhada de um quadro mais amplo: cansaço que vai sendo naturalizado, perda de força, redução de massa muscular, menos apetite, menos movimento, mais dependência e menos margem para sustentar o tratamento como antes. Diretrizes da ESMO sobre anemia em câncer destacam que anemia e deficiência de ferro são complicações frequentes e costumam vir associadas a fadiga, pior função física e pior qualidade de vida. (Annals of Oncology)

Na pessoa idosa, esse impacto pesa ainda mais porque a avaliação não pode parar na hemoglobina. Materiais recentes da ASCO e a Diretriz Brasileira de Oncogeriatria da SBGG reforçam que função física, nutrição, fragilidade e suporte precisam entrar cedo na leitura clínica. (ASCO Publications)

Também por isso, fadiga não deveria ser tratada como sintoma menor. O NCI descreve a fadiga relacionada ao câncer como persistente, desproporcional ao esforço e capaz de interferir no funcionamento habitual. E o INCA reforça, no consenso de nutrição oncológica, a importância de rastrear e abordar precocemente alterações nutricionais no paciente com câncer. (Instituto Nacional do Câncer)

Em um mês que lembra a importância do sangue, talvez valha ampliar a pergunta clínica: além da hemoglobina, o que essa anemia já está mudando na vida real da pessoa idosa?

Na sua prática, qual repercussão da anemia mais costuma passar despercebida no início?

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