Dra. Polianna Souza

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Dra. Polianna Souza CRM/SP109226.

Médica geriatra pela UNIFESP, formação em Cuidados Paliativos pela Asociacion Pallium Latinoamerica e em Oncogeriatria pela SIOG, área de atuação em Dor pela AMB e administradora do site Oncogeriatria Brasil.

Quando uma pessoa idosa com câncer apresenta comprometimento cognitivo, a pergunta clínica não deveria terminar em:“Ela ...
09/10/2026

Quando uma pessoa idosa com câncer apresenta comprometimento cognitivo, a pergunta clínica não deveria terminar em:

“Ela consegue ou não consegue?”

Há outra questão muito prática:

o que precisa mudar na forma como organizamos o cuidado?

Uma alteração cognitiva pode interferir na compreensão das orientações, na lembrança de horários, no manejo de medicamentos, no relato de sintomas e na capacidade de perceber que algo mudou entre uma consulta e outra.

Também pode modif**ar a participação da família e da rede de apoio.

Isso não signif**a presumir incapacidade, nem transferir automaticamente todas as decisões para outra pessoa. Signif**a reconhecer que o grau e o tipo de alteração cognitiva importam — e que suporte, comunicação e monitoramento precisam acompanhar essa realidade.

A ASCO recomenda que a cognição faça parte da avaliação geriátrica de pessoas idosas com câncer, ao lado de função física, saúde emocional, comorbidades, medicamentos, nutrição e suporte social. Quando aparecem vulnerabilidades, os achados devem orientar o plano de cuidado e as intervenções necessárias.

A SIOG também inclui cognição entre os domínios centrais da avaliação geriátrica e destaca que esse olhar multidimensional pode revelar dificuldades que não aparecem na avaliação oncológica habitual.

Na prática, isso pode signif**ar menos dependência de uma orientação verbal única, mais clareza sobre quem acompanha o quê e maior atenção a mudanças de comportamento ou rotina que possam ser a primeira manifestação de um problema.

O comprometimento cognitivo não define sozinho o tratamento.

Mas ignorá-lo pode tornar um bom plano difícil de compreender, executar ou monitorar com segurança.

Na sua equipe, o que mais costuma precisar ser adaptado quando a cognição começa a interferir no cuidado?

Há decisões em que já temos muitos dados.Exames, diagnóstico, possibilidades terapêuticas, riscos conhecidos.E, ainda as...
07/10/2026

Há decisões em que já temos muitos dados.

Exames, diagnóstico, possibilidades terapêuticas, riscos conhecidos.

E, ainda assim, a resposta não f**a clara.

Nessas horas, aprendi a desconfiar da pergunta.

“Ele pode fazer esse tratamento?” pode ser tecnicamente relevante.

Mas, na pessoa idosa com câncer, talvez ainda seja pouco.

Às vezes, precisamos perguntar:

O que eu ainda preciso compreender sobre essa pessoa antes de decidir se esse tratamento faz sentido para ela?

A mudança parece pequena, mas abre espaço para informações que a primeira pergunta não alcançava: reserva fisiológica, funcionalidade, cognição, comorbidades, risco de toxicidade, capacidade de recuperação, preferências e aquilo que a pessoa considera importante preservar.

O mesmo acontece com “qual é o tratamento indicado?”.

Em alguns casos, a pergunta que organiza melhor a decisão é:

“Entre as opções possíveis, qual delas é coerente com este paciente, neste momento?”

Isso não coloca evidência e técnica em segundo plano.

Faz o contrário: ajuda a usar os dados para responder à pergunta clínica que realmente importa.

Na oncogeriatria, muitas decisões continuam difíceis mesmo depois de uma boa avaliação.

Mas mudar a pergunta pode revelar uma parte do caso que até então não estava entrando na decisão.

E, quando muda o que conseguimos enxergar, muda também a qualidade da escolha que construímos.

Na sua prática, qual pergunta já fez você enxergar uma decisão de outro jeito?

Quando uma mulher idosa recebe o diagnóstico de câncer de mama, saber a idade dela é importante.Mas não é suficiente par...
02/10/2026

Quando uma mulher idosa recebe o diagnóstico de câncer de mama, saber a idade dela é importante.

Mas não é suficiente para entender como ela poderá atravessar o tratamento.

Duas mulheres de 75 anos, com o mesmo diagnóstico, podem ter funcionalidade, cognição, comorbidades, medicamentos, suporte e prioridades completamente diferentes.

E essas diferenças podem mudar a forma como avaliamos risco de toxicidade, capacidade de recuperação e viabilidade de determinada estratégia.

É por isso que a oncogeriatria não parte da pergunta “qual tratamento uma mulher dessa idade costuma receber?”.

A pergunta é mais precisa:

quem é esta mulher que vai receber o tratamento?

A ASCO recomenda que a avaliação de pessoas idosas com câncer inclua função física e cognitiva, saúde emocional, comorbidades, polifarmácia, nutrição e suporte social, justamente porque vulnerabilidades relevantes podem não aparecer na avaliação oncológica habitual. Esses achados também podem orientar a própria decisão terapêutica.

No câncer de mama em mulheres idosas, a SIOG também incorpora à discussão elementos como avaliação geriátrica, comorbidades, segurança dos tratamentos e preferências da paciente.

Individualizar não signif**a oferecer menos porque ela envelheceu.

Signif**a evitar tanto o excesso quanto a insuficiência de tratamento por uma leitura baseada apenas na idade.

Tratar uma mulher idosa com câncer de mama exige conhecer o câncer.
E conhecer a mulher que existe para além dele.

Na sua prática, qual informação mais costuma mudar uma decisão quando a idade cronológica, sozinha, parecia contar a história inteira?

A mesma idade pode esconder realidades clínicas muito diferentes.Um paciente de 78 anos pode manter boa funcionalidade, ...
30/09/2026

A mesma idade pode esconder realidades clínicas muito diferentes.

Um paciente de 78 anos pode manter boa funcionalidade, cognição preservada e autonomia. Outro, com a mesma idade, pode apresentar fragilidade, polifarmácia, perda funcional e pouca rede de apoio.

Por isso, idade cronológica é um dado importante, mas não suficiente para definir, sozinha, como um paciente vai tolerar determinado tratamento.

No novo artigo, discuto como a oncogeriatria amplia essa leitura e transforma idade em contexto clínico.

Artigo completo no meu LinkedIn (link na bio do Instagram).

Antes de iniciar ou manter um tratamento oncológico, algumas perguntas precisam acontecer fora do tumor.Há doença cardio...
28/09/2026

Antes de iniciar ou manter um tratamento oncológico, algumas perguntas precisam acontecer fora do tumor.

Há doença cardiovascular prévia?

Quais medicamentos essa pessoa já usa?

Existem fatores de risco relevantes?

Como está a capacidade funcional?

Qual é a reserva fisiológica para lidar com uma possível toxicidade?

Em pessoas idosas com câncer, essas informações podem modif**ar a forma de estimar risco, acompanhar sintomas, ajustar o tratamento e organizar o seguimento.

E isso ganha ainda mais importância quando pensamos em cardiotoxicidade. Diretrizes atuais de cardio-oncologia recomendam avaliar o risco cardiovascular basal antes de terapias com potencial cardiotóxico, considerando doença prévia, fatores de risco, tratamento proposto e características individuais do paciente. (escardio.org)

Mas risco cardiovascular não signif**a automaticamente contraindicação.

Signif**a antecipar.

Pode signif**ar investigar melhor antes de começar, otimizar condições prévias, revisar medicamentos, planejar monitorização e discutir em conjunto quando o risco e o benefício exigem uma decisão mais fina.

Na oncogeriatria, esse raciocínio se soma a funcionalidade, comorbidades, polifarmácia e reserva fisiológica. A Avaliação geriátrica ampla (AGA) ajuda justamente a colocar essas dimensões na mesma conversa clínica. (ascopubs.org)

Conhecer o câncer é fundamental.
Conhecer o quanto aquele organismo consegue sustentar também.

Antes de decidir apenas “qual tratamento?”, talvez valha perguntar:

quais riscos precisam ser antecipados para que esse tratamento seja realmente viável?

“Estou f**ando sem ar.”A frase parece apontar imediatamente para o pulmão.E pode apontar.Mas, na pessoa idosa com câncer...
25/09/2026

“Estou f**ando sem ar.”

A frase parece apontar imediatamente para o pulmão.

E pode apontar.

Mas, na pessoa idosa com câncer, a dispneia frequentemente exige um raciocínio mais amplo.

Importa saber quando começou, se apareceu de forma súbita ou progressiva, se ocorre em repouso ou no esforço, o que a acompanha e o que mudou no mesmo período.

Porque o sintoma pode estar relacionado a doença pulmonar, infecção, anemia, insuficiência cardíaca, efeitos do tratamento, descondicionamento e, em alguns casos, a mais de um desses fatores ao mesmo tempo.

Diretrizes da ASCO para dispneia em câncer recomendam uma avaliação abrangente, considerando gravidade, cronicidade, possíveis causas, gatilhos, sintomas associados e repercussões funcionais e emocionais.

Na oncogeriatria, esse raciocínio ganha ainda mais contexto.

Comorbidades, função física, medicamentos, nutrição e outras vulnerabilidades podem modif**ar tanto a apresentação do sintoma quanto sua repercussão. A ASCO recomenda que esses domínios façam parte da avaliação geriátrica da pessoa idosa com câncer.

Isso não signif**a procurar uma causa menos óbvia só porque ela existe.

Signif**a não encerrar a investigação na primeira explicação plausível.

A falta de ar é um dado clínico importante.
Mas ainda precisamos entender a história que ela está contando.

Na sua prática, qual pergunta mais costuma ajudar a organizar o raciocínio diante de uma nova dispneia?

Anemia, leucopenia, plaquetopenia.O hemograma mostra o dado. A avaliação clínica ajuda a entender o que esse dado repres...
23/09/2026

Anemia, leucopenia, plaquetopenia.

O hemograma mostra o dado. A avaliação clínica ajuda a entender o que esse dado representa para aquela pessoa.

Na pessoa idosa com câncer, o mesmo grau de alteração pode ter implicações diferentes dependendo de sintomas, tendência ao longo do tempo, tratamento em curso, comorbidades, medicamentos, reserva fisiológica e funcionalidade.

Uma anemia não é apenas um valor de hemoglobina quando vem acompanhada de dispneia, piora funcional ou redução importante da tolerância ao esforço.

Uma leucopenia ganha outra dimensão quando consideramos tratamento recente, risco infeccioso e trajetória das contagens.

Uma plaquetopenia também não deveria ser lida apenas pelo número, sem relacioná-la a sangramento, medicamentos, procedimentos previstos e evolução clínica.

Isso não diminui a importância do exame. Pelo contrário.

É justamente porque o número importa que ele precisa ser interpretado no contexto certo.

Na oncogeriatria, a Avaliação geriátrica ampla (AGA) acrescenta informações sobre funcionalidade, comorbidades, medicamentos, nutrição e vulnerabilidades que podem modif**ar a forma como um achado laboratorial entra na decisão clínica.

O hemograma é uma parte importante da avaliação.

Mas não é a avaliação inteira.

Na sua prática, qual alteração laboratorial mais costuma mudar de signif**ado quando você olha para o contexto completo da pessoa?

Nem toda dificuldade aparece como incapacidade.Às vezes, a pessoa continua tomando os medicamentos corretamente, mas ago...
21/09/2026

Nem toda dificuldade aparece como incapacidade.

Às vezes, a pessoa continua tomando os medicamentos corretamente, mas agora depende de três alarmes por dia.

Continua chegando às consultas, mas alguém passou a lembrar todas as datas.

Mantém a própria rotina, mas precisou criar listas, anotações e uma organização muito mais rígida para não perder etapas.

Ou ainda administra os próprios remédios, mas um familiar começou a conferir tudo no fim do dia.

Nada disso é, por si só, sinal de doença. Estratégias de compensação podem ser recursos excelentes de adaptação.

A informação clínica está em outra pergunta:

isso sempre foi necessário ou passou a ser?

Quando avaliamos uma pessoa idosa com câncer, saber apenas se ela “consegue” realizar uma tarefa pode não contar toda a história. Também importa entender como consegue, o que precisou mudar e quanto apoio passou a ser necessário para manter o mesmo resultado.

A Avaliação geriátrica ampla (AGA) inclui cognição, funcionalidade e suporte social justamente porque vulnerabilidades relevantes podem não aparecer na avaliação oncológica habitual. A ASCO recomenda investigar esses domínios em pessoas idosas com câncer, e a SIOG reforça que a avaliação geriátrica pode revelar dificuldades previamente não reconhecidas.

Esse olhar não serve para transformar toda adaptação em comprometimento cognitivo.

Serve para perceber mudança.

Porque uma pessoa pode continuar independente no resultado final e, ao mesmo tempo, estar usando muito mais esforço, estrutura ou ajuda para chegar até ele.

Avaliar não é apenas perguntar se a pessoa consegue.
É entender como ela está conseguindo.

Na sua prática, qual pergunta costuma revelar essas estratégias que não aparecem no primeiro “estou bem”?

Nem todo risco para a pessoa idosa com câncer aparece como um erro evidente.Às vezes, ele começa antes da prescrição, do...
18/09/2026

Nem todo risco para a pessoa idosa com câncer aparece como um erro evidente.

Às vezes, ele começa antes da prescrição, do procedimento ou da escolha do tratamento.

Começa quando uma informação isolada ganha peso demais na decisão.

“É só fraqueza.”

“É da idade.”

“Ele está funcional porque veio andando.”

“Os exames estão bons.”

Cada uma dessas informações pode ser verdadeira. O problema é quando passam a representar o paciente inteiro.

Na oncogeriatria, uma conduta pode parecer simples até colocarmos ao lado dela cognição, funcionalidade, comorbidades, medicamentos, nutrição, suporte e aquilo que essa pessoa consegue sustentar na rotina.

É justamente por isso que a Avaliação geriátrica ampla (AGA) reúne diferentes domínios. A ASCO recomenda que a avaliação da pessoa idosa com câncer considere função física e cognitiva, saúde emocional, comorbidades, polifarmácia, nutrição e suporte social, porque vulnerabilidades relevantes frequentemente não aparecem na avaliação oncológica habitual.

Isso não signif**a tornar toda decisão mais complicada.

Signif**a reconhecer quando simplif**ar demais pode retirar da equipe justamente a informação que mudaria a conduta.

Antes de perguntar apenas “qual é a conduta?”, talvez valha incluir outra pergunta no raciocínio:

“O que ainda não estou considerando nesta pessoa?”

Para você, qual informação aparentemente pequena mais costuma mudar uma decisão quando finalmente aparece?

Nem sempre o risco trombótico se anuncia de forma evidente.Às vezes, ele começa a mudar quando o paciente passa a caminh...
16/09/2026

Nem sempre o risco trombótico se anuncia de forma evidente.

Às vezes, ele começa a mudar quando o paciente passa a caminhar menos, enfrenta uma infecção, retorna de uma internação mais fragilizado ou demora a recuperar a mobilidade habitual.

No artigo, discuto por que acompanhar essas mudanças de trajetória é tão importante quanto reconhecer fatores de risco já conhecidos.

A pergunta central é simples: o que mudou neste paciente nas últimas semanas?

Artigo completo no meu LinkedIn (link na bio do Instagram).

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