Sandra Sehnem

Sandra Sehnem Provoco reflexões e estimulo conversas sobre cotidiano e arte com o olhar da psicanálise. Atendimento online.

Talvez o barulho não esteja no tamanho do acontecimento, mas no quanto aquilo movimenta a vida psíquica.Há experiências ...
14/05/2026

Talvez o barulho não esteja no tamanho do acontecimento, mas no quanto aquilo movimenta a vida psíquica.

Há experiências aparentemente pequenas,
que seguem reverberando por anos.

Quando uma “verdade” não pode ser interrogada, ela deixa de operar como verdade e passa a funcionar como tampão.Ela não ...
28/04/2026

Quando uma “verdade” não pode ser interrogada, ela deixa de operar como verdade e passa a funcionar como tampão.

Ela não abre pensamento.
Ela fecha. E isso tem efeitos.

Sem possibilidade de interrogação, sem não poder perguntar, duvidar, deslocar…
eu não estou implicada ali.

Eu só acredito. É uma relação de submissão ao sentido, não de elaboração.

A certeza absoluta protege mas ao custo de empobrecer a vida psíquica.

A certeza funciona como uma defesa contra a angústia. Ela organiza. Dá chão.
Dá direção.

Mas cobra um preço:
Será que se pode sair dali sem que tudo desmorone?

A certeza elimina a pergunta.

E isso dá alívio…
mas também empobrece a experiência.

Anotações…
17/03/2026

Anotações…

“Eu sou mais forte do que eu.”Quem é esse “eu” que fala?E quem é esse “mais forte” que aparece?Há, em cada pessoa, uma p...
15/03/2026

“Eu sou mais forte do que eu.”

Quem é esse “eu” que fala?
E quem é esse “mais forte” que aparece?

Há, em cada pessoa, uma pequena ilusão de governo. Chamamos isso de eu.
É o lugar das explicações, das justificativas, das narrativas que contamos sobre nós mesmos.

O eu gosta de acreditar que conduz a própria vida. Mas, de repente, algo acontece.

Uma escolha que não entendemos.
Uma repetição que juramos que não faríamos novamente.
Uma frase que escapa da boca antes que possamos detê-la.

Nesse momento, percebemos:
há algo em nós que não pede autorização ao eu.

A psicanálise chama isso de inconsciente.
Não é um porão cheio de coisas escondidas.
É mais parecido com uma força silenciosa que atravessa o sujeito e reorganiza sua vida sem pedir licença.
O eu diz:
“Eu não quero isso.”
Mas algo insiste.
O eu promete:
“Agora será diferente.”
Mas o mesmo enredo retorna. E então aparece essa sensação estranha que Clarice nomeia com tanta precisão:

“eu sou mais forte do que eu”

Como se dentro de cada pessoa existissem dois níveis de existência:
um eu que acredita comandar
e um sujeito que escapa a esse comando

O primeiro organiza.
O segundo insiste.

O primeiro explica.
O segundo age.

É por isso que muitas decisões humanas não obedecem à lógica da razão.
Elas obedecem à lógica do desejo.

E o desejo não é um projeto consciente.
Ele nasce da falta, daquilo que nunca se resolve completamente.

Por isso o sujeito é atravessado por algo que ele mesmo não domina.

Às vezes isso aparece como sintoma.

A frase de Clarice toca exatamente nesse ponto delicado:

não somos uma unidade tranquila.

Somos uma espécie de campo atravessado por forças.

O eu tenta organizar o caos.
Mas o desejo continua circulando por baixo da superfície.

E talvez seja justamente aí que reside o humano.
Não na ilusão de controle total,
mas na experiência inquietante de perceber que existe algo em nós que sabe mais sobre nós do que nós mesmos sabemos.

Por isso a frase não é sobre força no sentido heroico.
É quase uma confissão.
Uma descoberta silenciosa:

há em mim algo que me ultrapassa.

E é isso que faz da vida psíquica um território tão misterioso.

“Gato escaldado tem medo de água fria” aponta para algo profundamente humano: a experiência deixa marca e essa marca reo...
12/02/2026

“Gato escaldado tem medo de água fria” aponta para algo profundamente humano: a experiência deixa marca e essa marca reorganiza a forma como percebemos o mundo.

Depois de uma vivência dolorosa, podemos antecipar perigo onde não há, reagir defensivamente ou evitar situações que lembram o sofrimento. Não é apenas lembrança. É um aprendizado que passa pelo corpo — uma inscrição da dor que coloca o sistema em modo de proteção.

Mas a psicanálise lembra: não se trata só de evitar dor, e sim de como essa experiência se inscreve na história do sujeito. A dor toca expectativas, fantasias, lugares de vulnerabilidade.

O medo que vem depois não é apenas prudência. Pode ser uma tentativa de evitar reviver um trauma, uma defesa contra a repetição, um modo de preservar o eu.

O risco é quando a proteção vira excesso: viver menos para não sofrer também empobrece a experiência — e custa vitalidade.

Existe aí uma tensão inevitável: proteger-se é necessário, mas viver implica aceitar risco.

Amadurecer não é deixar de ter medo. É reconhecer a marca da experiência sem permitir que ela governe tudo.

Quando essa memória é integrada, a defesa automática se transforma em discernimento e a dor deixa de ser prisão para se tornar sabedoria incorporada.

Duas fotos. A primeira é atual.A segunda, de mais ou menos dez anos atrás.Quem poderia dizer o que vejo se não eu mesma?...
21/01/2026

Duas fotos. A primeira é atual.
A segunda, de mais ou menos dez anos atrás.

Quem poderia dizer o que vejo se não eu mesma?

Depois de percorrer um bom período em um processo longo, profundo e silenciosamente transformador de análise pessoal, posso falar com propriedade:

Meu percurso foi um atravessamento interno, uma mudança de posição diante de mim mesma.

Não foi uma superação épica.
Foi cotidiana.
Feita de pequenos confrontos internos.
De encarar o que eu evitava.
De sustentar perguntas que doíam.

Me encarar foi olhar para meus medos sem maquiagem.
Para meus dramas sem romantizar.
Para meus traumas sem tentar torná-los virtude.
Para crenças que estreitavam minha visão de mundo.

Foi perceber quantas vezes eu repetia histórias na minha cabeça, achando que eram destino.
Chamava de “meu jeito” o que era ferida.

A análise não me transformou em outra pessoa.
Ela me devolveu algo mais raro:
a possibilidade de escolha.

E eu respirei de alívio com isso…
algo foi descomprimindo.

Escolher não responder do mesmo lugar.
Amar de outro modo.
Não me calar onde já posso falar.
Não sustentar papéis que já não me representam.

Essa é a revolução que poucos veem.
(Uma ruptura íntima.)
Porque ela acontece por dentro.
No que finalmente solto.
No que deixo de aceitar.

Hoje entendo:
mudar de posição diante de mim mesma
é deixar de ser refém de velhos roteiros,
narrativas que me capturavam,
formas antigas de me defender,
modos repetidos de existir.

E essa experiência me trouxe para a formação contínua em psicanálise.

Me mantenho em análise como um compromisso de seguir me escutando com honestidade.
Mas nem sempre quero.
E isso me humaniza.

Hoje, ofereço essa ferramenta
às pessoas que também desejam explorar seus próprios caminhos.

Porque quando alguém se escuta de verdade, algo muda.

Um 2026 feliz, próspero, desafiador e significativo para todos nós.

O que cria laço entre seres humanos?O laço nasce porque a palavra falha e é na falha que buscamos o outro.Você fala uma ...
08/12/2025

O que cria laço entre seres humanos?

O laço nasce porque a palavra falha e é na falha que buscamos o outro.

Você fala uma coisa… o outro escuta outra.
Porque ele tem história, feridas, fantasias, memórias diferentes das suas.

Esse desentendimento cria um vazio.

Uma sensação de “não foi bem isso que eu quis dizer”.

Esse vazio te empurra a tentar de novo.

Você tenta explicar, se aproximar, ajustar, escutar melhor.

É essa tentativa que cria laço.
A costura entre o que você quis dizer e o que o outro entendeu.

Cada pessoa é um limite.
E é no limite que o encontro acontece.

O laço NÃO vem das afinidades,
mas do que retorna entre dois:
um gesto, um silêncio, uma repetição.

Podemos até falar o mesmo idioma,
mas cada um fala com um dialeto próprio.
Por isso há ruído.
Por isso existe laço.

O laço social nasce da falta, do que não encaixa e do desejo que insiste em nos levar ao outro.

04/12/2025

Como Clarice Lispector consegue falar de um tema tão difícil com tanta delicadeza?Porque Clarice nunca fala do tema fron...
03/12/2025

Como Clarice Lispector consegue falar de um tema tão difícil com tanta delicadeza?

Porque Clarice nunca fala do tema frontalmente. Ela desvia, encena, escorrega pela borda, e é isso que torna suportável o que, se fosse dito de frente, seria insuportável.

Isso é arte!

Em “Medo da eternidade” ela reduz o infinito a um chiclete, transforma o abismo em vida concreta.

Ela fala do grave sem parecer grave.

Em vez de dizer “a eternidade angustia”, ela mostra uma criança mastigando sem fim.
O drama se torna visível, mas não ameaçador. A dor está lá, mas escondida na doçura da narrativa.

Ela troca ideia abstrata por sensação corporal. Isso aproxima. Isso torna digerível.

Ela mantém a dor, mas corta o peso.

Clarice nunca força a interpretação.
Ela deixa o mistério trabalhar sozinho.
A eternidade aparece apenas como incômodo, não como sentença existencial.

É assim que ela fala do infinito sem nos jogar no infinito.

✨ Por isso funciona:

Clarice reconhece a profundidade, mas escreve pela superfície. Como quem toca num espinho sem apertar.
Como quem sabe que o tema é grande demais, então o veste de pequeno.

Ela não nega a angústia.
Ela a torna tocável. Isso é arte!

A psicanálise inteira: de Freud, Lacan e todos que seguem essa linha, parte dessa ideia:há algo em nós que falta,mas ess...
01/12/2025

A psicanálise inteira: de Freud, Lacan e todos que seguem essa linha, parte dessa ideia:

há algo em nós que falta,
mas essa falta não tem nome,
não tem objeto,
e nunca se preenche por completo.

Essa falta é o motor do desejo.

A vida nos coloca em situações como se tivéssemos diante de espelhos…que revelam aquilo que insistia em permanecer fora ...
28/11/2025

A vida nos coloca em situações como se tivéssemos diante de espelhos…que revelam aquilo que insistia em permanecer fora do campo de visão.

É comum supor que os conflitos vêm de fora: das pessoas, dos gestos alheios, das situações que parecem se repetir como provações.

Mas, para a psicanálise, aquilo que “vem de fora” muitas vezes devolve algo de dentro, algo que ainda não encontrou elaboração.

O controle, a irritação, a tentativa de organizar o mundo ao redor costumam ser respostas para evitar aquilo que aperta por dentro.

O mundo, porém, não obedece.
Ele reflete.

Quando se reconhece que o Outro não é inimigo, mas cenário onde o inconsciente se escreve, a lógica muda.

Conflitos externos deixam de ser mera coincidência e passam a indicar pontos internos ainda não trabalhados.

A pessoa que incomoda, a cena que se repete, o caos que parece injusto…tudo isso funciona como retorno daquilo que foi recusado, negado ou recalcado.

O mundo não fala.
Ele mostra.

E quando alguém se observa com honestidade e coragem para sustentar o que emerge, percebe que a vida não age contra ninguém; ela apenas repete até que algo possa ser transformado.

• O que não se elabora, se repete.
• O que se evita, retorna.
• O que se transforma dentro, muda a forma como tudo é percebido fora.

Isso não é misticismo, é mudança de posição subjetiva.

Quando se responsabiliza pelo que é seu, o mundo deixa de ser ameaça e passa a ser leitura.

O externo não se alinha sozinho.

Ele ecoa a posição que cada um ocupa diante da própria falta e do próprio desejo.

Que cada pessoa encontre espaço para se observar e se deslocar.
Porque aquilo que se busca não está distante, apenas aguarda a chance de ser reconhecido.

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