31/08/2026
Em “Meu corpo não existe”, Paul B. Preciado apresenta a ideia de um corpo exilado para pensar a experiência de habitar um corpo que não encontra reconhecimento nas categorias sociais disponíveis. O exílio, aqui, não significa necessariamente estar longe de um território geográfico, mas experimentar uma espécie de desterritorialização de si: o corpo existe materialmente, sente, deseja e age, mas sua existência é negada ou tornada ilegível pelos sistemas que determinam quais corpos podem ser reconhecidos e nomeados.
Nesse sentido, o corpo trans aparece como um corpo submetido a uma contradição: para existir socialmente, precisa atravessar dispositivos médicos, jurídicos e linguísticos que pretendem dizer o que ele “realmente” é. O corpo exilado é, portanto, aquele que foi separado do direito de produzir sua própria verdade, porque sua identidade é continuamente remetida a uma definição exterior, isto é, ao s**o atribuído no nascimento, ao diagnóstico, ao documento, ao olhar médico ou à norma de gênero.
Mas Preciado também transforma esse exílio em uma posição política. Se o corpo não coincide inteiramente com as categorias que deveriam defini-lo, essa inadequação pode revelar que tais categorias não são naturais nem inevitáveis. O corpo exilado torna-se, assim, um lugar de contestação das fronteiras entre masculino e feminino, normal e patológico, corpo legítimo e corpo impossível: ao reivindicar sua existência justamente onde a norma afirma que ele “não existe”, esse corpo expõe e desafia os regimes que decidem quais formas de vida são reconhecíveis.
Referência: PRECIADO, P.B. 2017. “My Body Doesn’t Exist.” In LATIMER, Q. & SZYMCZYK, A. (eds.). The documenta 14 Reader. Munich, London, New York: Prestel Verlag, pp. 117-161.
Dra. Débora Pitol
Médica cirurgiã plástica
CRM 141307 / RQE 59198