23/04/2026
Carta aberta aos residentes de Pediatria da Santa
Aprendi tanto com vocês que esses ensinamentos reverberam em todos os espaços por onde circulo — e ainda quero ir.
Contem comigo para o que precisarem. Estarei por perto, brigando sempre para ampliar o espaço, para caber mais e que a gente se encontre em muitos outros lugares.
Continuem se importando, olhando nos olhos — mesmo cansados do pós-plantão —, mesmo quando o olhar das famílias é opaco e nos atravessa. Mesmo quando o sistema falha e não nos valoriza, que sigamos fazendo nosso trabalho com excelência.
“Continuem a nadar” nos mares da ciência, da empatia e do respeito. Encantem-se pelas histórias — elas dizem muito sobre cada dor física e mental de cada paciente e de cada família. Não há doença, há doentes.
A dor social que carregam ainda estamos longe de compreender… e, quando nos falta compreensão, é aí que devemos investigar, ter curiosidade e não subestimar a dor do outro.
Brinquem com as crianças — elas elaboram o mundo através do brincar.
Na dúvida diagnóstica: não patologizem. Peçam para reavaliar. Lembrem-se de que trabalhamos em janelas de oportunidade — e, se a gente muda rapidamente, imaginem as crianças.
Subvertam a lógica dos diagnósticos rápidos. Nomear dá uma falsa sensação de controle, mas não sustenta as nuances da infância. A puericultura é sobre abrir o olhar, não fechá-lo em um CID.
Fé nas crianças — elas não têm culpa do mundo que temos deixado a elas.
E cuidado com as palavras, principalmente ao dar más notícias. O jeito de falar muda a narrativa de uma história traumática. São palavras — às vezes nossas — que os pacientes repetem e que podem prendê-los em um ciclo traumático. Quebrem isso com delicadeza.
Quando faltarem palavras, sustentem o silêncio. Desenhem, façam mímicas. Certifiquem-se de que quem está do outro lado da mesa está sentindo nossos esforços em comunicar.
E descansem quando puderem. A residência é pesada. As histórias dos “tijolinhos” são difíceis e, às vezes, nos tornam mais céticos…
Mas nunca percam a esperança. E, quando acharem que estão perdendo, vamos marcar um café. Estou por aqui, sempre — emanando um campo teórico-afetivo toda quarta-feira.