22/04/2026
Era ela mulher das águas, fisgada pelo rio: seu guia e proveito. Sustento! Ribeirinha de si tornou-se ‘arisca’ quando precisou escapar. Foi chamada de ‘jaguatirica’ quando teve de resistir. Pra não se deixar dominar pulou da rede, antes mesmo de virar causo de pescador. Nenhum anzol lhe fez refém. “Tinhosa essa menina!” A ninguém pescou. Fluída desde a nascente, atravessou a erosão da terra porque quis servir de encontro do rio com o mar, do doce com o salgado, do eu com o outro. Tal qual o rio, queria ela apenas desaguar. Certa feita pensou: “por que o amor, a ausência de amor, o fim do amor, a necessidade de amor resulta em tanta violência?” (1)
Deixou então aquele relógio desembestado da cidade e tratou de buscar respostas nas veias d’água. Rio represado é igual artéria obstruída: adoece que só. Pra amar é preciso ser correnteza. Comida na matula, água na moringa, rio adentro. Estradeira! Fez-se bioma: fruto na Amazônia, raiz no Cerrado, espinho na Caatinga, umidade na Mata Atlântica. O horizonte do Pantanal e o vento do Pampa foram nortes. Solimões, Negro, Tapajós e Xingu: seus irmãos amazonenses. Embora tão violentado, o Velho Chico conseguiu ser companheiro de suas andanças. Mas foi, no coração do Brasil, diante dos grandes rios Tocantins e Araguaia, que ela entendeu a artesania dos vínculos: afeto robusto se faz de pequenos riachos. Ali mesmo deixou o pequi com os goianos e o pão de queijo com os mineiros. Selou a paz mundial.
E a ribeirinha, filha das águas e da floresta, tornou-se casa brasileira. A vegetação não f**ava só lá fora. Ela morava dentro dela. Tudo isso na familiaridade caseira de Cora Coralina, em seu Goiás Velho; de Adélia Prado e Guimarães nas Minas Gerais; de Ar**no Suasuna na Paraíba Pernambucana; de Carolina Maria de Jesus, despejada pela pobreza nas margens do Rio Tietê e, por último, de Érico Veríssimo. O tempo e o vento, a liturgia da casa, foi onde a mulher das águas se encontrou com o homem do chão. A bichinha podia serenar. Viva o amor que está a léguas de distância da violência. Viva o Brasil! Viva a Dona Vida!
PAULO CRESPOLINI
▪️Psicólogo - CRP 06/132391
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