09/02/2026
Quem já fez dupla terapêutica comigo ou quem foi meu paciente sabe o quanto o recurso do desenho é uma alternativa em diversas situações difíceis. Já desenhei a mãe que saiu da sala de espera sem avisar, já desenhei o herói favorito, já desenhei a voz de pacientes, já desenhei música, já desenhei choros, já rabisquei barulhos...
M. e D. formam uma dupla. M. chegou um pouco antes, neste dia e, ao entrar na sala, pegou um alfabeto e começou a brincar com ele junto comigo.
Quando D. chega, proponho que a gente troque de brincadeira visto que sempre é muito difícil para M. brincar de qualquer outra coisa quando o alfabeto está na cena - situação esta que já se repetiu inúmeras vezes e M. topava. Neste dia não - assim que eu guardei o alfabeto, M. começa a chorar muito e antes que eu pudesse fazer qualquer intervenção, D. diz: E se a gente desenhasse um alfabeto para o M. não ficar triste?
Eu respondo: você faria isso para ele?
D.: sim
Na mesma hora, ele pega uma caneta e um lápis e desenha as 5 letras que sabia e me pede para que ele possa ver as outras para conseguir desenhar.
D. nunca tinha feito a maioria daquelas letras, mas se esforçou muito em cada uma.
Quase no final, me mostra o N e diz: Tia Ju, você me ajuda nesse porque esse eu não sabo...
Como testemunha desta cena, eu o ajudo a fazer o N.
Logo após, ele se levanta, vai até M. que se acalma com o presente.
D. é um menino com um histórico difícil em sua constituição, mas que vem trilhando um caminho singular e autêntico. Parabéns, D.
Ver D. se utilizar de um recurso que eu já utilizei com ele muitas vezes, para acalmar um outro, foi emocionante.
O relato e as fotos foram autorizadas pelos pais.