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Psicologia - Gisela Furquim Esta página fala sobre Psicologia, Orientaçâo Vocacional, Arte Terapia, Winnicott e as Artes em geral, pois estas, a meu ver, promovem Saúde Mental!

15/07/2026

Fotografia e a Clínica

Logo que comecei a clinicar, eu fazia orientação vocacional para jovens.

Lembro-me de um paciente que não sabia qual profissão queria seguir, mas sabia o que não queria. O que já era um caminho, como no poema: “Não sei para onde vou, só sei que não vou por aí”.

Era um rapaz inteligente e sensível, porém não tinha palavras para expressar o que sentia e pensava. Propus, então, que fizesse fotos pelo celular a partir de alguns temas relacionados ao trabalho: vocação, talento, futuro e autonomia.

Passada uma semana, ele me trouxe fotografias que havia tirado do Pico do Jaraguá, encoberto por uma densa neblina.

A partir dessas fotos, nossas conversas começaram a fluir. Ele me disse:

“Mesmo que você não enxergue o Pico do Jaraguá, ele está lá atrás da névoa. O pico, assim como eu, não está claro, mas está ali. Eu ainda não sei qual caminho seguir, mas sei que, se você me ajudar a atravessar a névoa, vamos encontrar minha profissão.”

A fotografia pode ser compreendida não apenas como registro visual da realidade, mas como experiência humana. Fotografar é um modo de captar um instante verdadeiro da vida e recriá-lo como momento e emoção, onde o gesto e a realidade se encontram.

Para Winnicott, essa experiência se aproxima da ideia de viver de forma criativa, autêntica e espontânea. Para ele, saúde tem a ver com a capacidade de manter uma relação viva e emocional com a existência. Observar sem interferir, esperar o acontecimento e acolher a realidade tal como ela se apresenta naquele momento.

Assim, ao fotografar momentos cotidianos, encontros e delicadezas, tudo aquilo que é fugaz e frágil pode ser criado e captado ao mesmo tempo. A espera também é muito importante no ato de fotografar — e nas sessões de psicoterapia.

O fotógrafo é aquele que está presente para o acontecer.

Espera a luz, a onda quebrar, o voo da ave, o navio que passa, o passo de dança…

A fotografia pode ser pensada como o espaço potencial, conceito fundamental em Winnicott: uma área intermediária entre o mundo interno e o mundo externo, onde a brincadeira, a arte e a criação acontecem. A imagem surge justamente desse encontro entre subjetividade e realidade, constituindo-se como uma criação relacional.

Para Morin, há dois modos de viver.

O modo prosaico, relacionado à produtividade, ao funcionamento automático e à vida reduzida às tarefas. E o modo poético, no qual a pessoa pode perceber e criar beleza, encanto e mistério. É nesse modo de estar no mundo que alguma revelação acontece.

É esse olhar que colhe o mundo em sua profundidade e complexidade. A poesia está posta nas pequenas coisas, na simplicidade da vida: uma pêra, um livro, um tijolo, uma ponte, um cão.

Às vezes, essas simples coisas estão carregadas de intensidade, beleza e, talvez, sentido. Não se trata apenas de funcionar e cumprir obrigações, mas de estar com os olhos de ver, mantendo viva a capacidade de criar, encontrar e se deixar tocar pela vida.

Fotografar, na experiência de estar presente e na relação estética com o mundo e com o objeto escolhido, tem muita força. É através do enquadramento e do clique que o fotógrafo faz algo acontecer, algo expressivo e carregado de seu jeito singular e autoral de ser e estar no mundo.

Dessa forma, a fotografia pode ser experiência tanto para o terapeuta quanto para o paciente.

Para ambos, é necessário estar sensível ao mundo e refletir sobre ele e sobre o modo de relação que estabelecemos com a realidade. Estamos falando do ato de fotografar e de utilizar a fotografia como mediação da relação terapêutica, como uma porta de acesso às emoções e ao inconsciente.

Nesse atendimento, compreendi a importância da fotografia como instrumento de autoconhecimento, comunicação e encontro. Ao oferecer expressão àquilo que ainda não encontrou palavras, ela amplia as possibilidades de diálogo consigo mesmo e com o outro.

Nesse sentido, a fotografia pode constituir-se como um recurso valioso na prática terapêutica, favorecendo processos de elaboração psíquica, bem-estar e saúde mental.

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