05/10/2023
E Ar**no Suassuna fala em sua poesia maravilhosa dos sentimentos. Fala da solidariedade, da alegria, da delicadeza.
Eu reivindico a volta da delicadeza, da gentileza, da compaixão, da ternura, da singeleza, da suavidade, da empatia.
Por trinta anos atendi crianças. Meu consultório tinha escada de parque, rede cadeira, a gente fazia fogueira e conversava em volta dela. Tinha cozinha e fazíamos bolos e biscoitos e quando o pequeno era baixinho demais pra alcançar a pia, eu o colocava em cima dela e com as pernas cruzadas e a tigela apoiada no colo ele batia o bolo.
Não usava batedeira, era no muque mesmo!
Muitas vezes os maiores conversavam comigo lá de cima da escada. Às vezes na rede.
Era bom demais! Demais!
E quando a gente atende crianças e adolescentes aprende a pisar macio, com cuidado.
A gente não encerra a sessão porque deu o tempo. Não! A gente não interrompe a palavra deles.
É um privilégio tamanho ouvir suas histórias, fazendo bolo, em cima da escada, construindo uma casinha de madeira, que a gente respira baixinho, anda com leveza. Um poeta já disse que este território "contém sonhos!"
Ah! Eu quero a volta do pisar macio, do ouvido atento, respeitoso, da atenção cuidadosa para perceber a comunicação projetiva. Quando eles confiam, permitem que você sinta exatamente o que eles sentem.
E com os adultos não é diferente!
Os gestos simples que demonstram carinho, aceitação, respeito, podem mudar uma história.
E mudam! Hoje a Laura Pivatto escreveu algo que eu desconhecia.
Mario Quintana foi expulso, quando não tinha mais dinheiro nem amigos, do Hotel Majestic.
Colocaram suas malas na calçada.
E lá ficou o poeta. O poeta que amo, respeito e admiro.
Acontece que Paulo Roberto Falcão, o jogador de futebol, encontrando o poeta, literalmente na sarjeta, resgatou-o. Olhou-o e percebeu uma lágrima em seu rosto.
Então, sem nada dizer, colocou suas malas no carro e ajudou-o a entrar.
Parou em frente ao Hotel Royal.
Chamou o responsável e comunicou que, a partir de então, o poeta seria seu convidado.
Quando lhe perguntaram até quando, ele respondeu:"por toda a eternidade!'
Misturei tudo! Falei do Suassuna, dos meus pequenos, do Quintana, do Falcão...
Não misturei não! Só falei de amor!