15/08/2026
Maternidade, falta e construção do vínculo
Nesta cena entre Manu e o seu terapeuta Caio, na série Sessão de Terapia, o setting analítico torna-se um espaço de acolhimento da angústia materna sem julgamento. Caio introduz um dos conceitos centrais do psicanalista Donald Winnicott enfatizando que “as mães não nascem prontas”, e destaca que a maternidade é uma experiência psíquica construída na relação entre mãe e bebê (WINNICOTT, 1983).
A fala do terapeuta desmonta o ideal cultural da “mãe perfeita”, frequentemente sustentado por exigências narcísicas e sociais que colocam a mulher em posição de culpa diante das dificuldades da maternidade. Na clínica psicanalítica, contudo, a ambivalência materna não é tratada como falha moral, mas como parte constitutiva da experiência subjetiva, levando em conta que amar um filho não impede a presença de medo, exaustão, insegurança ou estranhamento diante da transformação psíquica provocada pela chegada do bebê.
Para Winnicott (1975), o bebê não se constitui de maneira isolada, mas a partir da relação estabelecida com um “ambiente suficientemente bom”. Isso significa que a maternidade se constrói na convivência cotidiana, na tentativa, no erro e na reparação. Caio diz que “os bebês ensinam as mães a serem mães”, esse movimento acaba deslocando Manu da posição de insuficiência para a possibilidade de reconhecer um vínculo em construção com sua filha.
Sob a ótica da psicanálise, a cena também mostra a função do setting como espaço de simbolização, uma vez que a paciente ao ser escutada, ela se depara com a chance de poder nomear suas angústias sem precisar sustentar a máscara da completude. Freud (1926) aponta que a angústia emerge quando o sujeito se confronta com situações de desamparo. Na maternidade, esse desamparo pode reaparecer de forma intensa, recolocando a mulher diante de suas próprias fragilidades narcísicas e afetivas.