14/10/2026
Existe uma pergunta que muitas famílias fazem, sussurrada, ao fonoaudiólogo ou ao psicólogo. “Se eu deixar ela usar a prancha, ela vai desistir de tentar falar?” O medo é legítimo. A resposta da ciência é clara. Não.
Comunicação Aumentativa e Alternativa é o conjunto de recursos, símbolos, estratégias e tecnologias que complementa ou substitui a fala em pessoas com necessidades complexas de comunicação. Vai de pranchas com figuras a aplicativos de tablet, passando por sistemas de sinais, gestos e comunicação mista.
Uma revisão de escopo publicada em 2025 na revista Autism, de Alfaro Urrutia e Pérez Godoy, sintetizou décadas de estudos e chegou à seguinte conclusão. Comunicação Aumentativa e Alternativa não atrasa o desenvolvimento da fala. Em vários casos contribui para a emergência da fala, porque reduz a frustração de não conseguir expressar necessidades e desejos.
Do lado brasileiro, um estudo conduzido em Clínica Escola de Fonoaudiologia da UFPE observou aumento de 51,47% na produção de atos comunicativos em crianças autistas após intervenção com Comunicação Aumentativa e Alternativa. Um trabalho apresentado no décimo Congresso Brasileiro de Comunicação Aumentativa e Alternativa, da ISAAC Brasil, em 2025, documentou a experiência de implementação integrada à ABA em contexto clínico intensivo, com resultados positivos em comunicação funcional.
Por que isso importa. Comunicação não é só palavra. É poder pedir, protestar, contar, escolher, dizer não, chamar atenção. Quando uma criança não tem esse canal, ela frequentemente usa o corpo para comunicar, e o corpo comunica de formas que podem ser lidas como comportamento problema, como choro persistente, agressão, autolesão, fuga. Dar um canal funcional para se expressar reduz sofrimento antes mesmo de mudar comportamento.