09/05/2025
Boa parte do sofrimento humano reside no fato de não conseguir lidar com sua relativa insignificância — com a realidade trivial, mas indigesta, de que o mundo não vai parar de girar caso fulano desapareça.
Somos importantes para uma ínfima parcela da existência. Somos relevantes para os nossos, para os próximos, no sentido mais cristão do termo, como na parábola do bom samaritano. Para os que professam uma fé, relevantes também para Deus, porém, Esse não usa redes sociais, até onde sabemos.
A internet deu-nos a ilusão de que as pessoas ligam para o que fazemos e para o que fazem conosco. Ledo engano. A imensa maioria da população está pouco se importando se você ficou preso no trânsito, se sua encomenda atrasou, se você quebrou a tela do celular ou se te negaram nuggets no rolê.
Se você for "famoso", talvez muita gente se interesse — justamente porque sua insignificância é insuportável a tal ponto que precisam agrupar-se em torno de uma pseudorrelevância coletiva.
Isso não significa, claro, que não possamos postar nada. Compartilhar o que estamos fazendo ou gostaríamos de fazer, a música que ouvimos, o show que contemplamos, os lugares legais que frequentamos, etc. As redes sociais servem para isso mesmo. Dividir, informar, entreter, compartilhar. Mas é necessário ter a consciência de que isso só tem alguma importância para seu pequeno grupo, assim como cair da bicicleta em 1990 só era importante para os vizinhos da sua rua e seus colegas de classe. Éramos “felizes” nesse quesito, porque não esperávamos que 400 pessoas dessem “😂” em nossa piada ou “😢” em nosso lamento.
Pode ser legal ter 5000 seguidores, mas não conte com esse número em seu velório. E, se precisar de um rim, saiba que não será fácil encontrar um doador.
Portanto, além de expectativas equilibradas, abraçar nossa relativa insignificância é também fonte de saúde emocional.
Alessandro Poveda
Psicanalista