25/09/2026
Estou quase nas bodas de prata com a clínica e, nesses anos, ouvi tantas histórias de traição que fui f**ando menos interessada em explicações rápidas. Há a dor de quem descobre um acordo rompido, mas há também a complexidade de quem trai sem conseguir dizer o que buscava. Talvez por isso psicanálise e moralismo combinem tão pouco: compreender não é absolver nem transformar uma experiência humana em sentença.
Foi desse lugar que li Do amor e seu avesso: uma apologia da traição, de Lucas Charafeddine Bulamah. É um livro corajoso porque pergunta, sem recorrer à moral, por que alguém trai mesmo quando ama e a relação funciona. Quando tudo vai mal, encontramos uma narrativa; mais difícil é admitir que ser feliz com alguém não pacif**a tudo o que se passa no desejo.
Bulamah retoma Laplanche para pensar essa parte de nós que nunca conhecemos por inteiro. Desde cedo, recebemos do outro cuidado e afeto, mas também algo atravessado pelo inconsciente, que tentamos traduzir sem conseguir por completo. “Sedução”, aqui, não signif**a abuso nem intenção de seduzir, mas esse encontro com algo do outro que nos constitui antes que possamos compreender.
Daí a força da frase: “Governar o sexual parece ser a nossa última utopia”. Relações precisam de acordos, mas nenhum acordo elimina a ambivalência; até uma relação aberta tem regras.
Enquanto lia, lembrei de A alma imoral, de Nilton Bonder, e da tensão entre tradição e transgressão. Nem toda transgressão transforma. Às vezes, conserva, permitindo viver algo fora sem mexer no que está dentro.
O livro questiona a ideia de que se trai em busca de mais vida, intensidade e desejo. E se houver também uma busca por mais morte? Não morte literal, mas repetição, destrutividade, desligamento. A pergunta deixa de ser apenas o que faltava na relação e passa a incluir o que ali se tornou difícil de sustentar.
A fidelidade também pode carregar uma expectativa de permanência, como se amar implicasse que o outro não mudasse demais e que seus desejos não se afastassem tanto do roteiro construído a dois. Talvez seja esse o paradoxo que mais me interessa: uma traição pode romper uma relação, mas pode também ser uma maneira de não romper.