03/05/2022
Esse é um velho dilema dentro da Psicologia e não apenas entre os recém-formados na profissão: falar sobre você para o paciente, poder abraçá-lo num momento de dor, chorar com os relatos de sofrimento daquele que busca você para lidar com a própria angústia é algo válido/permitido na clínica ou não?
Há uma certa "atmosfera clínica" socialmente construída de que o psicólogo precisa ser uma pessoa neutra sobre os assuntos, alguém que se coloca em uma posição de distância do discurso do outro, um sujeito que não pode se utilizar de exemplos dentro de sua própria experiência vital como instrumento clínico em nome deste "ideal profissional"; mas a grande pergunta é: o que garante que toda essa "assepsia" garanta o melhor resultado possível dentro do ambiente de trabalho psicológico? Esse tipo de prática mercadológica transforma a Psicologia numa profissão puramente tecnicista e faz com que sua atuação se equipare a um maquinário autômato independente; o outro acaba se tornando para mim um simples objeto no qual minha atividade será destinada.
Precisamos lembrar que somos, acima de tudo, seres humanos e que a Psicologia existe para oferecer um suporte àqueles que passam por um momento difícil em suas vidas, àqueles que buscam um maior autoconhecimento, àqueles que estão na indecisão quanto aos próximos passos a serem tomados; àqueles que precisam conversar; ou seja, são seres humanos lidando com outros seres humanos e não é possível se desvencilhar deste fato. Um encontro clínico é algo que envolve emoções e sentimentos, tal qual quaisquer tipos de relações que temos na vida, sejam elas familiares, laborais, escolares ou amorosas; obviamente que existe uma ética profissional que delimita critérios de responsabilidade para que a clínica se mantenha dentro do âmbito trabalhista, contudo, isso não faz com que sejamos robôs em nossa prática.
Não há problema nenhum em demonstrar empatia com o próximo, ser compreensivo à dor do outro e sentir-se tocado pela história de vida daquele que o procura, isso inclusive pode servir de instrumento clínico para estreitar ainda mais a afinação entre profissional e paciente e potencializar o processo terapêutico como um todo.