09/06/2026
tenho pensado que uma das coisas mais difíceis não é apenas sentir dor, angústia, medo ou confusão. talvez uma das partes mais difíceis seja perceber o quanto a gente tenta se defender daquilo que sente. antes mesmo de entender o que está acontecendo, a gente já tenta fazer passar, controlar, explicar, ocupar a cabeça ou provar para si mesmo que não deveria estar sentindo aquilo.
e isso é muito humano. ninguém quer permanecer em um lugar desconfortável por muito tempo. ninguém gosta de se perceber vulnerável, cansado, perdido ou afetado por algo que gostaria de superar com mais facilidade. só que, muitas vezes, quanto mais a gente luta contra o que sente, mais o sofrimento se desorganiza por dentro. ele não desaparece. ele muda de forma.
talvez a primeira lição seja essa: f**a um pouco mais possível quando a gente desiste de lutar contra o que sente. não porque sentir seja simples ou bonito, mas porque, quando eu paro de brigar com o que aparece em mim, começo a ter alguma chance de reconhecer o que está acontecendo. posso dizer, ainda que com dificuldade: “é assim que eu estou me sentindo”. e essa frase, por mais simples que pareça, às vezes já é um primeiro gesto de cuidado.
porque reconhecer não resolve tudo, mas muda a posição que a gente ocupa diante do próprio sofrimento. quando eu reconheço que estou triste, cansado, com medo, confuso ou sobrecarregado, deixo de tratar tudo isso apenas como falha, fraqueza ou exagero. começo a perceber que talvez exista alguma coisa ali pedindo elaboração, palavra, tempo, escuta, limite ou presença.
e cuidar disso não signif**a encontrar uma resposta rápida. cuidar pode ser parar de se violentar tanto. pode ser conversar com alguém sem precisar organizar tudo antes. pode ser aceitar que algumas coisas ainda estão confusas. pode ser procurar terapia não porque você está quebrado, mas porque talvez não precise atravessar tudo sem companhia.
o conforto, nesse sentido, não vem antes. ele vem depois de algum reconhecimento. vem quando a gente consegue se aproximar de si com um pouco menos de guerra.
se você leu até aqui e não é tão bom com as palavras, comenta: “eu