01/09/2026
Amor por si só não garante uma experiência interessante de sermos sós.
Porque amar alguém não significa, necessariamente, ter condições emocionais de oferecer a sustentação de que essa pessoa necessita.
Uma mãe pode amar profundamente seu bebê e, ainda assim, não conseguir oferecer uma presença suficientemente boa para que ele se sinta seguro. Ou seja, reconhecer suas necessidades emocionais e atendê-las minimamente.
A capacidade de estar só tem início justamente nessa relação mãe–bebê. Quando o bebê pode estar só na presença de alguém que se constitui como um ambiente suficientemente bom, estar só pode se tornar uma experiência segura - e posteriormente, interessante.
Quando essa experiência não pôde ser vivida, a solidão pode ser experienciada como uma grande ameaça de desamparo, angústia, sensação de vazio, abandono, invasão e até de aniquilação.
É dessa experiência que muitas pessoas passam a vida tentando fugir: da angústia que aparece quando não há alguém por perto, do vazio que precisa ser rapidamente preenchido, do pavor de se perceber só e também da ameaça que a presença e a proximidade do outro podem representar.
Mas não é a simples presença de alguém que transforma essa experiência. São relações suficientemente boas que podem oferecer as condições emocionais para que estar só deixe de ser vivido como ameaça.
E é também por isso que há algo de ilusório na ideia de que essa capacidade possa ser conquistada sozinha. Somos seres relacionais: se é na relação com o outro que a capacidade de estar só começa a se constituir, é também em outras relações que ela pode encontrar novas condições para se desenvolver ao longo da vida.
Um processo de análise suficientemente bom pode oferecer justamente uma dessas experiências: uma relação na qual nem a ausência do outro precise ser vivida como abandono, nem sua presença como invasão e na qual, pouco a pouco, estar só possa se tornar uma experiência possível, segura e também interessante.
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