20/07/2026
O excesso de medo após experiências traumáticas na infância: uma compreensão psicológica.
O medo é uma emoção fundamental para a sobrevivência.
No entanto, quando a criança vivencia situações de ameaça constante, negligência, violência, abandono ou imprevisibilidade, seu organismo pode permanecer em estado de alerta mesmo quando o perigo já não está presente.
Segundo John Bowlby, criador da Teoria do Apego, as primeiras relações de cuidado influenciam profundamente a forma como a criança percebe o mundo.
Quando essas relações oferecem segurança, a criança desenvolve confiança para explorar o ambiente.
Em contrapartida, quando predominam medo, instabilidade ou falta de proteção, o mundo pode passar a ser percebido como um lugar permanentemente inseguro.
Donald W. Winnicott também contribui para essa compreensão ao afirmar que um ambiente suficientemente bom favorece o desenvolvimento emocional saudável.
Quando o ambiente falha de maneira intensa ou repetida, a criança pode organizar seu funcionamento psíquico em torno da necessidade constante de proteção, tornando-se excessivamente vigilante diante das situações da vida.
Sob a perspectiva da neurociência, experiências traumáticas na infância podem alterar o funcionamento dos sistemas responsáveis pela resposta ao estresse.
A amígdala cerebral, estrutura relacionada ao processamento do medo, tende a responder de forma mais intensa, enquanto áreas envolvidas na regulação emocional podem ter seu funcionamento comprometido.
Como consequência, situações cotidianas podem ser interpretadas como ameaçadoras, mesmo quando objetivamente não representam perigo.
Por isso, o excesso de medo observado em muitos adultos nem sempre está relacionado ao presente, mas pode representar uma adaptação desenvolvida na infância para lidar com contextos de sofrimento.
O que um dia foi uma estratégia de sobrevivência pode continuar presente mesmo quando já não é necessária.
Nesse sentido, o processo psicoterapêutico oferece um espaço seguro para compreender essas experiências, ressignificar os traumas e desenvolver novas formas de perceber a si mesmo, os outros e o mundo.