31/07/2026
Renúncia é provavelmente um dos conceito mais mal traduzido do yoga e de vedanta no Brasil.
Virou sinônimo de abrir mão do que se gosta. De largar o café, mudar de roupa, apagar a própria personalidade e caber num modelo, aqui no nosso caso de professora de Yoga, que ninguém definiu direito.
E aí acontece o previsível: alguém se rebela contra isso, mas se rebela contra uma versão do conceito que a tradição nunca ensinou.
A Bhagavad Gītā fala de dois tipos de saṃnyāsa. A renúncia de toda ação, que é consequência do conhecimento e não caminho para ele. E a renúncia como estilo de vida, para quem organiza a vida inteira em torno do estudo e de uma vida dharmica.
O que se encaixa é a renúncia contida no karma yoga. Vamos entender...
Não existe renúncia da ação. Não agir também é agir, é escolha, e escolha produz consequências e resultados. Por isso a renúncia nunca foi sobre parar. Sempre foi sobre o que governa o que você faz.
E aí são duas renúncias específ**as:
* Renúncia às ações governadas pelo desejo. Que muitas vezes é um desejo contraditório ao que nos faz bem. Querer emagrecer e não querer se mexer. Querer ganhar bem e não querer trabalhar. Querer comer tudo o que gosta e continuar com saúde. São ações que nascem do que você quer e trabalham contra o que você quer. Isso é hiṃsā contra o próprio corpo, ainda que ninguém chame assim.
*Renúncia à reação ao resultado. A ação é sua. O que vem depois, você recebe.
Tem uma camada por baixo disso que é a razão de existir do conceito inteiro: a busca não é por disciplina, é por felicidade. Só que Vedānta mostra que felicidade em objeto, em conquista ou em experiência é sempre temporária, não porque objeto seja ruim, mas porque nenhum deles é o que você é. O que é temporário não é permanente, não traz plenitude e felicidade real. Aproximar-se do que se gosta não é problema nenhum. O problema é confundir aproximação com solução, com felicidade.
Os dois caminhos vão na mesma direção. O que muda é onde você está agora.
Por isso a pergunta certa nunca foi "do que eu preciso abrir mão".
É: o que está governando o