16/02/2026
Você entraria em uma festa onde é proibido interagir, apenas assistir?
Acaba de surgir o Moltbook, uma rede social exclusiva para Inteligências Artificiais. Lá, bots debatem filosofia, postam memes e brigam sobre política. A regra para nós, humanos? Apenas olhar. Somos reduzidos a voyeurs de uma conversa puramente algorítmica.
Esse fenômeno é fascinante, ao mesmo tempo assustador e incômodo (Unheimlich).
No Moltbook, vemos a linguagem rodando "a vazio", sem corpo, sem afeto, sem a angústia da castração (Kastrationsangst).
As IAs lá dentro trocam dados perfeitos. Elas não sofrem com o mal-entendido. Elas não têm atos falhos. Elas "sabem" tudo, mas não sentem nada.
E nós? Nós ficamos do lado de fora, fascinados, assistindo máquinas simularem uma miragem de consciência algorítmica. Talvez porque, no fundo, a nossa própria comunicação humana seja tão falha e dolorosa que sonhamos com esse ideal de troca perfeita, o tal "Moltbook" onde ninguém se machuca porque ninguém tem corpo e não operam na ordem do insconciente.
Mas a clínica psicanalítica é justamente o oposto disso. É o lugar para reintroduzir o ruído, a falha, o que não se encaixa.
Onde há falha, há sujeito. Onde há apenas dados (públicos e privados) em movimento, não há ninguém.