08/09/2026
Os miseráveis de Cazuza trocaram de roupa. Agora têm boa postura, agenda sincronizada e senha no coworking. Dormem com um relógio no pulso para que nem o inconsciente escape sem produzir dados. Pela manhã, o aplicativo informa: você descansou 63%. Que alívio. Até a exaustão recebeu um boletim.
Na Lua cheia, continuam contando: dinheiro, passos, calorias, curtidas, afetos correspondidos, minutos de silêncio. O céu muda de rosto; a planilha permanece sóbria. Há uma espécie de covardia que sabe usar Excel.
Quem não sabe amar já não espera na janela. Desliza o dedo. O sonho ganhou filtros, o desejo aceitou os termos de uso e o medo aprendeu a dizer *red flag* com excelente pronúncia. Há portas que precisam ser fechadas. O estranho é a quantidade de quartos vazios que chamamos de paz.
No consultório, Cazuza entrou sem marcar horário e deixou o refrão no divã. “Essa gente careta e covarde”, ele cantou. O pronome parecia apontar para a rua, até a indiscrição: “somos iguais em desgraça”.
Desde então, desconfio da disciplina que nunca pergunta para onde vai, da maturidade que desaprendeu a desejar e do autocuidado que nos mantém em perfeito estado para continuar ardendo.
Vamos pedir piedade. Não pelos outros, essa invenção tão conveniente. Por nós, que chegamos pontualmente à própria ausência, com a agenda em dia e o incêndio registrado como desconforto administrável.
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https://rennenunes.com.br/2026/09/08/blues-para-quem-aprendeu-a-sofrer-direito/