Psicólogo Renne Nunes

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Psicólogo Renne Nunes Psicólogo / Psicanalista
Mestre em Psicologia Clínica pela USP
Especialista em Psicoterapia Psican

Os miseráveis de Cazuza trocaram de roupa. Agora têm boa postura, agenda sincronizada e senha no coworking. Dormem com u...
08/09/2026

Os miseráveis de Cazuza trocaram de roupa. Agora têm boa postura, agenda sincronizada e senha no coworking. Dormem com um relógio no pulso para que nem o inconsciente escape sem produzir dados. Pela manhã, o aplicativo informa: você descansou 63%. Que alívio. Até a exaustão recebeu um boletim.

Na Lua cheia, continuam contando: dinheiro, passos, calorias, curtidas, afetos correspondidos, minutos de silêncio. O céu muda de rosto; a planilha permanece sóbria. Há uma espécie de covardia que sabe usar Excel.

Quem não sabe amar já não espera na janela. Desliza o dedo. O sonho ganhou filtros, o desejo aceitou os termos de uso e o medo aprendeu a dizer *red flag* com excelente pronúncia. Há portas que precisam ser fechadas. O estranho é a quantidade de quartos vazios que chamamos de paz.

No consultório, Cazuza entrou sem marcar horário e deixou o refrão no divã. “Essa gente careta e covarde”, ele cantou. O pronome parecia apontar para a rua, até a indiscrição: “somos iguais em desgraça”.

Desde então, desconfio da disciplina que nunca pergunta para onde vai, da maturidade que desaprendeu a desejar e do autocuidado que nos mantém em perfeito estado para continuar ardendo.

Vamos pedir piedade. Não pelos outros, essa invenção tão conveniente. Por nós, que chegamos pontualmente à própria ausência, com a agenda em dia e o incêndio registrado como desconforto administrável.



Leia o texto completo no link:
https://rennenunes.com.br/2026/09/08/blues-para-quem-aprendeu-a-sofrer-direito/

Assistir à terapia dos outros parece confortável: o sofrimento está na tela, a sessão tem hora para acabar e podemos des...
01/09/2026

Assistir à terapia dos outros parece confortável: o sofrimento está na tela, a sessão tem hora para acabar e podemos desligar quando quisermos, até que um personagem descreva algo que fazemos há anos sem perceber.

Sessão de Terapia nos aproxima da delicadeza de uma cena em que alguém fala e outro escuta, mas a própria força da ficção pode nos fazer esquecer que, na tela, o sofrimento precisa caber em episódios, sustentar arcos narrativos e oferecer sinais visíveis de transformação. Fora dela, não há roteirista organizando o tempo de quem fala, nem temporada capaz de decidir quando uma lembrança estará pronta para ser compreendida.

Assistindo à série, fiquei pensando no que esperamos encontrar quando procuramos terapia: alívio, alguma explicação para o que sentimos, talvez alguém que diga por onde seguir. Uma análise nem sempre oferece isso da forma ou no tempo que imaginamos; muitas vezes, é a própria pressa de se resolver que acaba entrando em análise.

Vivemos cercados por promessas de desempenho, clareza e aperfeiçoamento, como se até o sofrimento devesse respeitar prazos, métodos e indicadores de progresso. Nesse mundo, sustentar uma dúvida, escutar o que insiste em retornar e admitir que certas experiências ainda não podem ser pensadas talvez seja mais do que um cuidado individual; talvez seja uma maneira de resistir à transformação da vida em produto.

Por que fazer análise quando tudo corre a milhões de bytes por segundo?

Leia o texto completo no link abaixo.



https://rennenunes.com.br/2026/09/01/a-serie-sessao-de-terapia-e-o-tempo-que-uma-analise-exige/

Depois de ler a entrevista de Esther Perel à Folha de S.Paulo, fiquei com a impressão de que as telas nem são o pior dos...
26/08/2026

Depois de ler a entrevista de Esther Perel à Folha de S.Paulo, fiquei com a impressão de que as telas nem são o pior dos nossos cativeiros. Mais difícil de largar é a fantasia de que, com informação suficiente, escolhas melhores e alguma terapia, encontraremos alguém que não nos desorganize.

A lista é conhecida, queremos uma pessoa disponível, interessante, madura, que saiba conversar, respeite nosso espaço, tenha desejo e projeto de vida. E, se não for pedir muito, que não resolva entrar em crise numa terça-feira, porque na quarta acordamos cedo. Dizemos que queremos um vínculo, mas muitas vezes queremos mesmo é uma experiência sem atrito; um amor que chegue perto, mas não bagunce os móveis.

É verdade que o diagnóstico organiza a cena, põe o defeito do lado de lá e nos devolve uma versão razoável de nós mesmos. Isso dá um alívio, claro. Quando tudo parece explicado, quase não sobra espaço para perguntar por que aquilo mexeu tanto conosco.

Nem todo incômodo merece ser suportado e sair de certas relações é uma maneira de não nos abandonarmos dentro delas. Ainda assim, há uma boa distância entre recusar o intolerável e transformar qualquer desconcerto em prova de incompatibilidade.

Nem tudo o que não entendemos no outro é incoerência ou falta de honestidade. Uma pessoa pode dizer uma coisa e só dias depois perceber que sentia outra; quem escuta também não chega vazio, traz consigo medos, pressa e expectativas. Nem todo desencontro precisa virar veredito na mesma hora, muito menos prova de incompatibilidade.

Por isso fiquei com uma pergunta meio incômoda: ainda sabemos encontrar alguém sem transformá-lo depressa em diagnóstico, ameaça ou serviço mal prestado? Se o amor precisar cumprir metas, manter a performance e passar no controle de qualidade, vai funcionar lindamente. A piada é essa: finalmente teremos uma relação impecável, só que sem ninguém dentro.



Veja o texto completo no link:
https://rennenunes.com.br/2026/08/26/a-vida-que-perdemos-tentando-nao-perder-tempo/

Em agosto de 2025, entrei no Theatro Municipal sem saber o que Réquiem SP faria comigo. Um ano depois, voltei conhecendo...
22/08/2026

Em agosto de 2025, entrei no Theatro Municipal sem saber o que Réquiem SP faria comigo. Um ano depois, voltei conhecendo o percurso da obra, o som de Ligeti, a queda insistente da água, a passagem para Venetian Snares e os corpos entregues àquilo que não cabe numa palavra. Pensei que reconhecer seus gestos talvez me protegesse. Não protegeu.

Réquiem SP voltou diferente porque eu também voltei diferente. Depois de atravessar palcos na França, na Colômbia e no México, a obra regressa a São Paulo sem perder a capacidade de provocar, incomodar e desorganizar quem a encontra. Isso me parece especialmente importante num tempo em que nem toda mudança signif**a avanço.

Eu poderia escrever outra vez sobre morte, luto ou renascimento. Desta vez, porém, queria fazer algo mais simples: agradecer.

Quero agradecer a Alejandro Ahmed e a todos que tornaram essa obra possível: o Balé da Cidade de São Paulo, Maíra Ferreira, a Orquestra Sinfônica Municipal, o Coral Paulistano, Bill Valkyrie e as equipes técnicas e de produção. Há muito trabalho reunido naquele palco, e ele chega ao público como uma experiência inteira. Réquiem SP consegue tornar sensíveis algumas das angústias que habitam o espaço entre a vida e a morte e, a partir delas, nos faz olhar novamente para a própria vida.

Ao Bruno, meu agradecimento mais afetuoso por sempre se lembrar de mim, pelos convites e por me aproximar, mais uma vez, da obra do Balé. Há uma generosidade nesse gesto que não passa despercebida.

Na saída, não procurei uma interpretação definitiva. Fiquei apenas grato pela oportunidade de rever uma obra que me afetou tanto quanto na primeira vez. Tempo depois, ainda estou pensando nela.

Assisti 🅱🅰🅲🅺🆁🅾🅾🅼🆂: Um Não-Lugar e fiquei com uma impressão irritante: não saí de lá. Não se trata de monstros assustador...
18/08/2026

Assisti 🅱🅰🅲🅺🆁🅾🅾🅼🆂: Um Não-Lugar e fiquei com uma impressão irritante: não saí de lá. Não se trata de monstros assustadores, o problema são aqueles corredores que mudam só o suficiente para nos convencer de que avançamos. A vida adora esse truque.

Clark entra e, claro, começa a tratar o labirinto como uma descoberta. A gente faz isso o tempo todo: dá um nome novo ao que se repete para não ter de admitir que voltou ao mesmo ponto. Freud já tinha estragado a surpresa: "compulsão à repetição" e Kane Parsons só acrescentou carpete úmido e luz fluorescente para a coisa f**ar mais fotogênica.

Mary entra para procurar Clark, e aí o filme me pegou por outro lado. Como psicólogo, conheço bem essa fantasia de entrar no labirinto de alguém, achar a sala onde tudo deu errado e trazê-lo de volta. O inconveniente é que o inconsciente não fornece planta baixa nem sinaliza saída de emergência.

No fim, ninguém parece exatamente preso. Há portas por toda parte, o que torna tudo um pouco pior. Continuo pensando em quantas vezes achei que estava mudando de caminho e só percebi depois que continuava no mesmo lugar. Se alguém souber a saída, não precisa me avisar. É bem possível que eu já tenha passado por ela e escolhido outra porta.



Leia o texto completo no link:
https://rennenunes.com.br/2026/08/18/backrooms-a-estranha-arquitetura-da-repeticao/

Um homem diz a um amigo que anda mal. Ainda está procurando um jeito de explicar quando vem a piada. Ele ri também, meio...
11/08/2026

Um homem diz a um amigo que anda mal. Ainda está procurando um jeito de explicar quando vem a piada. Ele ri também, meio aliviado, meio frustrado, e a conversa morre ali. Já vi essa cena e já participei dela em algum momento.

Foi uma das coisas em que pensei lendo 𝐴 𝑣𝑜𝑛𝑡𝑎𝑑𝑒 𝑑𝑒 𝑚𝑢𝑑𝑎𝑟: ℎ𝑜𝑚𝑒𝑛𝑠, 𝑚𝑎𝑠𝑐𝑢𝑙𝑖𝑛𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒𝑠 𝑒 𝑎𝑚𝑜𝑟, de bell hooks. Entre homens, às vezes basta uma frase mais íntima para que alguém mude de assunto, faça graça ou ofereça uma solução rápida. Como se escutar por mais tempo criasse um risco. O risco de quê, exatamente?

A gente aprende cedo a chamar esse recuo de força. Não pedir ajuda, não admitir medo, parecer indiferente quando alguma coisa nos desmontou. O sentimento continua ali, claro. Só muda de roupa. Vira raiva, trabalho demais, controle, bebida, ironia. Nem sempre termina em violência, mas fingir que nunca termina é desonesto.

Esse livro me interessou porque bell hooks não faz carinho no orgulho masculino. Também não aceita aquela explicação preguiçosa de que “homem é assim mesmo”. Ela pergunta o que fizeram conosco e, mais incômodo ainda, o que passamos a fazer com os outros depois disso. Ter sido ferido explica alguma coisa, mas não dá licença para ferir.

Enquanto há cursos prometendo transformar homens em “farol e forja”, hooks propõe algo bem menos vistoso: abrir mão do domínio, aprender a cuidar e se deixar ver. Para muitos homens, isso assusta mais do que qualquer discurso sobre força.

Enquanto escrevia, aquela cena do começo não saía da minha cabeça. Por que uma conversa entre homens f**a tão difícil quando a brincadeira acaba e alguém começa, de fato, a falar de si?



O texto completo está no link:

https://rennenunes.com.br/2026/08/11/o-que-perdemos-para-nos-tornarmos-homens/

Um dia ruim deveria caber em vinte e quatro horas. Mas basta deixar algumas mensagens sem resposta, adiar o exercício e ...
04/08/2026

Um dia ruim deveria caber em vinte e quatro horas. Mas basta deixar algumas mensagens sem resposta, adiar o exercício e perder a paciência para desejar que ele tivesse quarenta e oito, como se algumas horas a mais pudessem devolver a sensação de ter dado conta. Quando a noite chega, a pergunta já mudou: em vez de “o que aconteceu comigo hoje?”, surge “o que há de errado comigo?”

“Hoje não consegui” vira “sou incapaz”. E ninguém parece estranhar o tamanho do salto.

O curioso é que tudo ao redor desaparece nessa passagem. O prazo absurdo, o celular que não para, o cansaço acumulado, a obrigação de estar disponível e ainda demonstrar entusiasmo. No fim, sobra a pessoa convencida de que o defeito deve estar nela e pensando seriamente em baixar outro aplicativo de produtividade.

Como se não bastasse dar conta de tudo, ainda é preciso parecer bem enquanto se tenta. O cansaço não pode incomodar ninguém e o sofrimento, quando aparece, deve chegar já convertido em aprendizado. Se ainda render um post sobre superação, melhor.

Levamos essa vigilância para os vínculos. Mostramos o que já conseguimos organizar e guardamos aquilo que ainda nos confunde. Assim, alguém pode conversar conosco todos os dias e conhecer apenas a parte que aprendemos a manter em ordem.

Barbara Stiegler fala da obrigação de se adaptar; Remedios Zafra, do entusiasmo que se espera de nós; Anna Kornbluh, da pressa. Lendo as três, fiquei com uma pergunta incômoda: quando foi que deixamos de reconhecer essas exigências como cobranças e começamos a tratá-las como verdades sobre nós?

“A gramática da insuficiência” nasceu dessa pergunta. Antes de concluir “sou incapaz”, vale descobrir quem nos ensinou a terminar a frase desse modo.

Leia o texto completo:

https://rennenunes.com.br/2026/08/04/a-gramatica-da-insuficiencia/

Terminei « O túnel » e fiquei alguns minutos pensando no que Castel tinha acabado de fazer comigo. O crime está dado des...
28/07/2026

Terminei « O túnel » e fiquei alguns minutos pensando no que Castel tinha acabado de fazer comigo. O crime está dado desde o início; o que vem depois é uma disputa pela versão. Ele escolhe os fatos, distribui as culpas e acomoda María dentro do relato que lhe convém. Quando percebi, já estava respondendo a ele.

Castel observa María como se nenhum gesto pudesse ser inocente. Um silêncio dura demais, uma resposta chega tarde, uma frase parece esconder outra. Ele recolhe esses sinais e nos mostra um por um, à espera de que concordemos. Só que a conclusão já estava pronta antes de chegarmos.

Você também pode acompanhá-lo por algumas páginas. Castel é inteligente, atento e convincente. Sua lógica parece funcionar. O problema é que cada pergunta vai estreitando o caminho até restar somente a resposta que ele está disposto a aceitar.

Tudo começa com uma janela quase esquecida em um de seus quadros. María é a única a percebê-la. Para ele, aquilo deixa de ser um detalhe e se torna uma espécie de senha: alguém, enfim, chegou a um lugar que permanecia inacessível aos demais.

E o que acontece quando alguém nos vê, mas conserva dentro de si regiões às quais não temos acesso?

A mulher da janela passa a ser medida pelo que Castel espera dela. Seus silêncios deixam de lhe pertencer. Suas contradições viram indícios. Tudo o que ele não consegue compreender começa a adquirir a aparência de uma ameaça.
Sábato nos coloca numa posição desconfortável. Castel fala, eu desconfio, você lê e, entre nós três, María corre o risco de desaparecer outra vez, reduzida à versão do homem que pretende explicá-la.

Foi essa a pergunta que ficou comigo: em que momento o desejo de compreender alguém deixa de ser uma aproximação e começa a se parecer com uma tentativa de posse?
No texto completo, volto à janela, entro no túnel de Castel e procuro não aceitar todas as explicações que ele oferece.



Link para acessar o texto:

https://rennenunes.com.br/2026/07/28/ha-amor-no-fim-do-tunel/

Eu era adolescente quando ouvi os Três Tenores cantando Nessun dorma. Não conhecia Turandot, não sabia quem era Calaf ne...
21/07/2026

Eu era adolescente quando ouvi os Três Tenores cantando Nessun dorma. Não conhecia Turandot, não sabia quem era Calaf nem por que ninguém podia dormir. Mesmo assim, aquele vincerò ficou na memória.

Há poucos dias, no Teatro Bradesco, finalmente ouvi a ária dentro da história. E ela me pareceu bem menos inocente.

Na Pequim imaginada por Puccini, Turandot manda decapitar os pretendentes que fracassam diante de seus três enigmas. Calaf a vê, decide que está apaixonado e aceita o desafio. Resolve os enigmas, propõe outro jogo e obriga a cidade a passar a noite acordada. Romântico, diriam alguns. Inconveniente para os moradores de Pequim, no mínimo.

Liù conhece o nome de Calaf. Torturada para revelá-lo, prefere morrer. Pouco depois, ele repreende Turandot por sua crueldade, beija-a contra sua resistência e a violência ganha ares de romance. O coro cresce, a orquestra entra em ação e o desconforto adquire a imponência de uma revelação. A música torna tudo convincente.

Sob um olhar psicanalítico, Turandot transforma uma ferida herdada em lei. Calaf chama de amor o que mal conhece. Liù oferece cuidado, lealdade e a própria vida. A mulher que recusa precisa ser vencida; a que ama deve desaparecer. Os homens seguem cantando.

bell hooks desconfiaria dessa harmonia. Quando uma cultura confunde insistência com coragem, recusa com medo e sofrimento com afeto, até a dominação sobe ao palco em roupa de gala.

Puccini morreu antes de concluir a ópera. Sua música termina com Liù. O final foi escrito por outra mão quando a história precisava fazer uma morte desembocar no amor. Turandot pronuncia a palavra, o coro a repete e a orquestra a transforma em certeza. Liù já não pode contestá-la. Puccini, tampouco.

Saí do teatro com um quarto enigma. Ele não aparece no libreto e ninguém será decapitado por errar a resposta, embora algumas certezas românticas possam não sobreviver.

O quarto enigma está no texto completo, no link abaixo.



Link: https://rennenunes.com.br/2026/07/21/o-quarto-enigma-de-turandot/

Vivemos uma época em que ninguém parece autorizado a apenas existir. Acordamos devendo: água, treino, dieta, sono, traba...
14/07/2026

Vivemos uma época em que ninguém parece autorizado a apenas existir. Acordamos devendo: água, treino, dieta, sono, trabalho, leitura, saúde mental, sucesso, boa aparência e uma carinha serena para fingir controle.

A vida virou roteiro de sucesso: hábitos certos, corpo certo, carreira certa, descanso certo, sofrimento certo. Até o luto precisa render legenda bonita. Han, Ehrenberg e Debord ajudam a pensar esse cansaço de desempenho, autonomia obrigatória e espetáculo: não basta viver, é preciso parecer vivendo bem.

Só que a vida real é péssima em obedecer planilhas. Ela traz perda, espera, frustração, desejo, raiva, ternura e desamparo. Quando percebemos que tudo aquilo que é vivo também pode acabar, começamos a nos proteger: com agenda cheia e o velho truque de chamar defesa de maturidade.

Freud, em Sobre a transitoriedade, faz uma pergunta incômoda: algo perde valor porque termina? Uma flor vale menos porque dura pouco? Um amor é menor porque não é eterno? A resposta é não. O que passa não vale menos por passar. Às vezes vale mais porque não pode ser guardado.

Lembro de alguém dizer que não queria ter cachorro porque cães vivem menos que nós. “Quando ele morrer, vou sofrer muito.” Parece prudência. Mas há uma renúncia aí: para evitar a dor futura, abre-se mão da alegria presente.

Um cachorro não oferece eternidade. Oferece presença: rotina, pelo pela casa, passeio, susto, riso, cuidado, companhia. Ele muda o ritmo da casa e obriga uma saída de si. Quem ama um animal sabe que esse amor vem com luto anunciado. E ainda assim vale.

Na clínica, vejo algo parecido. Pessoas que sofreram aprendem a se proteger. Ninguém endurece por acaso. Mas a defesa, quando vira destino, estreita a vida. Deseja-se menos para frustrar-se menos. Ama-se pela metade para não cair inteiro.

A pergunta: quanta vida estamos dispostos a perder para não sofrer? Quem se defende da perda se defende também do encontro. Uma vida protegida da dor pode terminar protegida da própria vida.



Texto completo no link:
https://rennenunes.com.br/2026/07/14/defesas-contra-a-perda-defesas-contra-a-vida/

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