14/09/2026
Uma música, uma brincadeira, uma lembrança da infância, a dança, o tricô, uma metáfora ou uma obra de arte podem parecer desvios em relação àquilo que seria uma conversa “objetiva” sobre violência. Mas são justamente esses desvios que, algumas vezes, permitem acessar aquilo que a linguagem direta não alcança.
Ao falar de um trauma como quem fala de um acidente de trânsito, ao recordar as brincadeiras da infância ou ao reconhecer que o machismo também impede homens de experimentar outras formas de comportamento, surgem possibilidades de elaborar experiências que antes apareciam apenas como raiva, silêncio ou endurecimento.
Isso não significa apostar na arte como solução para a violência. A poesia não substitui responsabilização. A expressão de sentimentos não apaga os danos produzidos por um ato violento.
Mas a arte pode abrir uma fresta. Pode ampliar o repertório de palavras para aquilo que foi aprendido a esconder. Pode deslocar certezas. Pode permitir que um homem se reconheça como filho, pai, avô, amigo, parceiro, sujeito capaz de sentir e, sobretudo, responsável pelas relações que constrói.
Romper com a violência também exige romper com a ideia de que homens precisam viver protegidos por uma armadura emocional. Talvez seja preciso construir outras gramáticas para as masculinidades. Gramáticas em que haja verbo para falar sobre fraqueza, vulnerabilidade e afeto.