13/09/2026
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A entrevista concedida por Adam Phillips à Veja, em 2003, permanece extraordinariamente atual. Um dos mais influentes psicanalistas britânicos, editor da nova tradução das obras de Freud e autor de diversos livros, Phillips parece menos um cientista da mente e mais um profeta que anteviu a lógica emocional e cultural do século XXI. Suas observações, feitas há mais de vinte anos, descrevem com precisão desconcertante um mal-estar que se intensificou: vivemos em uma sociedade que teme a própria condição humana. A morte, o envelhecimento, a doença e o acaso, antes compreendidos como inevitáveis, são hoje encarados como inimigos pessoais. A fantasia coletiva de controle absoluto — do corpo, da saúde, do destino — substituiu a aceitação madura de nossas fragilidades, transformando o medo em atmosfera permanente.
Nesse deslocamento, a antiga busca por uma vida boa foi engolida pela necessidade de uma vida invejável. Não desejamos tanto viver bem, mas sermos vistos como alguém que vive bem. A lógica do espetáculo colonizou o intimamente humano. Até o s**o, que poderia ser uma experiência complexa, singular e inesgotável, foi reduzido a um discurso estereotipado. Fala-se muito, mas diz-se pouco. Exagera-se cedo: crianças reproduzem coreografias sensuais ou entram prematuramente no universo adulto. O resultado não é libertação, mas um deserto de insatisfação. Como afirma Phillips, estamos cada vez mais desesperados com o estilo de vida que nós mesmos construímos.
Essa redução também atinge o sofrimento. Nos consultórios, qualquer tristeza vira depressão. O mal-estar comum, parte constitutiva do viver, transforma-se rapidamente em patologia, como se a vida emocional só pudesse existir nas extremidades. Paralelamente, as crianças são empurradas para a corrida pelo sucesso tão cedo que deixam de ter tempo para sonhar — justamente aquilo que alimenta a subjetividade e a imaginação. Enquanto isso, o ideal de salvação que movia o homem medieval foi trocado por uma promessa muito mais rasa: riqueza e fama. Phillips observa que esse culto ao reconhecimento público impede que as pessoas percebam o que realmente desejam. Vivemos perseguindo o aplauso que imaginamos que os outros darão.
A contradição se agrava quando se analisam as relações entre cultura, mídia e educação. Pais tentam impor limites — alimentação, comportamento, responsabilidade — mas esses limites não encontram amparo na cultura. Enquanto a família tenta ensinar equilíbrio, a publicidade grita o contrário. Enquanto pais pedem prudência, a mídia legitima o excesso. Não se trata, portanto, de vigiar crianças, mas de ensiná-las a ler criticamente a cultura, a saber que propaganda não é ordem, que desejo não é destino. Sem essa mediação, as crianças se veem simultaneamente poderosas e perdidas, entregues a uma liberdade que não sabem manejar. Daí a sensação — tão frequente — de pais com medo dos próprios filhos.
Por fim, Phillips critica a mercantilização da psicanálise. Para ele, ninguém deveria escolher essa profissão para enriquecer. A terapia não pode seguir a lógica consumista do “quanto mais caro, melhor”. O espaço analítico — esse lugar de fala, de silêncio e de elaboração — deveria ser acessível, porque a reflexão sobre a própria vida é uma necessidade humana, não um artigo de luxo.
O diagnóstico de Phillips permanece contundente: somos uma sociedade que produz excesso, pressa e ansiedade, mas que não ensina a interpretar o mundo que fabrica. Entre a cultura que estimula sem freios e as subjetividades que tentam sobreviver a esse turbilhão, sua crítica ressoa como convite e advertência: não basta viver, é preciso compreender os códigos que moldam nosso desejo, nossos medos e nossos sonhos.