14/01/2026
Depois da descida, não existe retorno ao ponto de partida. Perséfone não volta a ser apenas Kore, e muitas mulheres também não. Há experiências que atravessam de forma definitiva: lutos, amores, violências, adoecimentos, maternidade, análise. Algo se perde, algo nasce, e a vida de antes já não comporta quem se tornou. A tentativa de voltar a ser como antes costuma doer mais do que a própria queda, porque o chamado não é para regressar, mas para sustentar o entre, o depois, o atravessado. Perséfone se torna rainha do submundo não apesar da descida, mas por causa dela. Talvez a pergunta não seja como voltar a ser quem se era, mas quem se está se tornando após aquilo que não teve volta. Nem toda transformação é bonita ou leve, algumas são sombrias, silenciosas e irreversíveis, e ainda assim profundamente iniciáticas.