15/01/2023
“Mininu baum é aquele que dorme sozinho, não amola, não enche o s**o. Deita e quando se vê, já foi”
Disse isso o pai da menina que dormia sozinha.
Na cama, em seu quarto ela se remexia, de lá para cá, como se buscasse conforto. Se envolvia, às vezes, naquela oposição encolhidinha que ela não sabia que tinha nome (posição fetal). Botava logo o dedo na boca, e aguardava o sono chegar.
Quando grande, mulher feita, chega ao consultório tomada por uma angústia sem nome. Conta que mantinha todas as tarefas e compromissos em dia: os prazos do trabalho, a merenda das crianças.
Se dá conta que a voz do pai continuava ressoando dentro dela, viva e forte: continuava sendo boa menina!
Levou tempo (muito tempo) para identif**ar o cansaço, estado do corpo e do espírito.
Cansaço para o qual não bastavam as férias e os finais de descanso. Tratava-se um cansaço de vida que exigia, por isso, reparação, urgente!
Foi aí que chegamos na cena da menina encolhida em posição fetal, ninando a si mesma.
Foi aí que percebemos que ela vivia uma solidão imensa.
Foi aí que descobrimos que era necessário que alguém se ocupasse dela para que ela pudesse então aprender a cuidar de si.
Foi aí que compreendemos que descansar exigia, antes de tudo, a presença de alguém que sustente o mundo enquanto nos ausentamos dele (e recuamos aqui, para dentro).
Aos poucos o descanso pode vir.
Primeiro como renúncia: era necessário dizer não a alguns compromissos; era necessário abandonar o perfeccionismo e o controle; era necessário adotar - como brincava a analista - o mantra “fazer o que dá, como dá”.
Aos poucos o descanso pôde vir, como aposta e ela topou o convite para ir ao divã.
Pela primeira vez o silêncio pode prevalecer: uma sessão inteiramente silenciosa e reparadora.
-“Você está aí Marina”, disse ela da posição nova que não a deixa me ver.
- “Sim, eu estou querida”, eu disse com cuidado porque sabia que não respondia apenas por mim, minha voz reparava todas aquelas ausências de outrora.
Ela se aquietou. Acomodou-se novamente sob a manta vermelha. Ela fechou os olhos e enfim pode descansar!
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Imagem: pinterest