01/09/2022
"Machismo é doença". Há um perigo tácito nessa frase. Embora pretenda dizer que o machismo é errado, uma espécie de ponto fora da curva de normalidade, incorre no seguinte erro: se há uma doença em vigor, não é culpa do sujeito. Desresponsabilza-se. Até mesmo individualizamos a questão, culpando um suposto desalinhamento nos neurotransmissores, um gene ruim, quiçá uma entidade diabólica.
Enquanto isso, na surdina, o machismo se reinventa. Cria novas formas, novos tentáculos. Enquanto estivermos ocupadas demais procurando repostas em CIDs e DSMs, a dominação patriarcal - assim como outras formas de opressão, como o racismo e a transfobia - continuará se avolumando, cada vez mais sofisticada.
Machismo tem muito mais a ver com práticas culturais, com as formas pelas quais ensinamos às pessoas o que significa ser homem. Como diria o autor Welzer-Lang (2001) tem a ver com uma violência que primeiro é contra si, para depois tomar o outro como alvo - leia-se esse outro como sendo aquele avesso a tudo que se diz masculino: as mulheres, ou até mesmos outros homens, os quais não atendam ao ideal hegemônico do momento, como homens g**s, negros, transmasculinos. Sendo formas inferiores de existência, merecem ser marginalizadas.
Enquanto estivermos buscando respostas em manuais, cegos ao entorno, à história, aos fenômenos sociais e às nossas atitudes cotidianas, estaremos andando em círculos. O cotidiano é o cenário das criações.
Ainda há muito a ser feito.
Referência: WELZER-LANG, Daniel. A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia. Estudos feministas, [s. l.], 2001. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ref/a/WTHZtPmvYdK8xxzF4RT4CzD/abstract/?lang=pt. Acesso em: 4 ago. 2021.