Carmen Nery

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Nem tudo o que incomoda veio para ser eliminado.Por muito tempo, pensei que o desconforto era um sinal de que algo estav...
16/06/2026

Nem tudo o que incomoda veio para ser eliminado.

Por muito tempo, pensei que o desconforto era um sinal de que algo estava errado.

A tristeza precisava passar, a dúvida precisava ser resolvida, a ansiedade precisava desaparecer. Como se a vida ideal fosse aquela em que tudo estivesse sempre em ordem.

Mas, com o tempo, comecei a perceber que alguns incômodos carregavam perguntas importantes. Eles não chegavam para me punir; chegavam para chamar atenção para algo que eu já não conseguia ignorar.

Às vezes, era um limite que eu não estava respeitando. Outras vezes, uma necessidade que eu vinha deixando para depois. E, em alguns momentos, era apenas a vida me mostrando que a pessoa que eu me tornei já não cabia mais no lugar onde estava.

Talvez seja por isso que algumas fases sejam tão desconfortáveis. Porque, antes de encontrarmos um novo caminho, geralmente precisamos reconhecer que o antigo já não nos serve mais.

E essa percepção raramente acontece em silêncio.

Ela costuma chegar como inquietação. Como cansaço. Como uma sensação difícil de explicar. Como aquela pergunta que insiste em voltar, mesmo quando tentamos seguir em frente sem escutá-la.

Talvez nem todo desconforto esteja tentando nos derrubar. Talvez alguns estejam apenas tentando nos mostrar para onde olhar.

Existe algum incômodo na sua vida que pode estar tentando lhe dizer alguma coisa?

Você aprendeu a agradar ou aprendeu a amar?Outro dia fiquei pensando em como algumas coisas se parecem muito quando vist...
15/06/2026

Você aprendeu a agradar ou aprendeu a amar?

Outro dia fiquei pensando em como algumas coisas se parecem muito quando vistas de longe.

Agradar e amar, por exemplo.

À primeira vista, os dois gestos carregam cuidado. Nos dois existe atenção, presença, generosidade. Nos dois fazemos escolhas pensando em alguém além de nós mesmas.

Talvez por isso seja tão fácil confundir uma coisa com a outra.

Muitas mulheres cresceram sendo reconhecidas pela capacidade de cuidar. Eram aquelas que ajudavam, que compreendiam, que cediam quando necessário, que evitavam conflitos e faziam o possível para que tudo estivesse bem ao redor.

E, aos poucos, sem que ninguém percebesse, foram aprendendo uma lição silenciosa: ser necessária era uma forma de ser amada.

O problema é que algumas vezes essa busca por corresponder vai ocupando tanto espaço que já não sobra lugar para perguntar o que se sente, o que se deseja ou o que se precisa.

Não acontece de uma vez.

Acontece quando a opinião é guardada para evitar um desconforto. Quando o limite é adiado para não decepcionar alguém. Quando um desejo é colocado em espera porque existem coisas mais importantes para resolver.

Até que, em algum momento, surge uma sensação difícil de nomear.

A vida continua acontecendo. As relações continuam existindo. Mas existe um cansaço que não parece vir apenas das tarefas ou das responsabilidades.

Talvez venha da distância. Da distância entre quem se é e quem se aprendeu a ser para caber na expectativa dos outros. Porque amar alguém não deveria exigir o desaparecimento de si mesma.

E talvez essa seja uma das reflexões mais delicadas da vida adulta: perceber que existe uma diferença entre fazer algo por amor e fazer algo por medo de deixar de ser importante.

Você já se perguntou quantas escolhas suas nasceram do amor... e quantas nasceram da necessidade de agradar?

Durante um atendimento recente, fiz uma pergunta que, à primeira vista, parecia simples: “O que você gosta de fazer?”. E...
09/06/2026

Durante um atendimento recente, fiz uma pergunta que, à primeira vista, parecia simples: “O que você gosta de fazer?”. Ela ficou em silêncio por alguns instantes antes de responder que simplesmente não sabia. E o silêncio não aconteceu porque ela não tivesse gostos, interesses próprios ou desejos guardados, mas sim porque fazia muito tempo, tempo até demais, que não se dava a permissão de pensar sobre eles.

Ao longo da vida, as responsabilidades se acumularam, as urgências ganharam prioridade e as escolhas precisavam ser feitas de forma prática. Ela aprendeu, dia após dia, a decidir com base no que precisava ser feito, no que era estritamente esperado dela e no que era importante para as pessoas à sua volta. Sem perceber, nesse movimento contínuo de entrega, ela passou a ser tão útil na vida dos outros que já não visitava com frequência a própria casa interna.

Com o passar dos anos, o hábito se solidificou e ela se acostumou a perguntar mecanicamente: “O que precisa ser feito?”, muito antes de sequer cogitar a pergunta: “O que eu quero?”. O processo foi tão sutil que chegou um dia em que as duas perguntas deixaram de parecer diferentes em sua mente.

Talvez seja exatamente assim que algumas partes essenciais de nós vão se tornando distantes. Isso não acontece nas grandes renúncias ou nas rupturas dramáticas, mas sim nas pequenas e silenciosas ausências diárias. Está na música que deixamos de ouvir no carro, no lugar que deixamos de visitar por falta de tempo ou naquele desejo genuíno que adiamos tantas vezes que ele acaba, por fim, cansando de insistir e ficando em silêncio.

Existe uma diferença crucial entre esquecer uma resposta e deixar de fazer a pergunta. Quando paramos de nos questionar, começamos a desaparecer da nossa própria paisagem.

Por isso, faço a mesma provocação que restou daquele atendimento: quando foi a última vez que você fez algo só porque você queria?

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