Psicanalista Adriana Scarpin

Psicanalista Adriana Scarpin Orientação psicanalítica lacaniana com letramento de gênero, raça e classe.

Quando pensamos, a fala é rica, detalhada como o David de Michelangelo, mas basta abrir a boca para que essa riqueza des...
23/08/2026

Quando pensamos, a fala é rica, detalhada como o David de Michelangelo, mas basta abrir a boca para que essa riqueza desmorone num rabisco, vira um boneco de palito, um esqueleto de ideia.
O significante nunca dá conta do significado, há sempre um resto que escapa quando o pensamento passa pelo desfiladeiro da fala. O sujeito não fala aquilo que pensa, fala aquilo que a linguagem permite que seja dito e nesse trajeto algo se perde necessariamente.
O pensamento onírico, associativo, condensado e multifacetado (o David) precisa ser traduzido para a lógica sequencial, linear, empobrecedora da palavra falada (o boneco de palito) para poder circular socialmente.
Por isso a angústia de não saber me expressar é, em certa medida, universal, é o preço de habitar a linguagem. Todo mundo pensa em David e fala em boneco de palito. A diferença entre as pessoas não é ter ou não esse hiato, mas o quanto cada uma consegue tolerá-lo sem se calar por vergonha da tradução imperfeita.
Essa tirinha me fascinou demais talvez porque também existe a terceira via, digamos que pensamentos sejam tão confusos quanto a fala, digamos que só é possível organizá-los através da escrita, ou no caso do cartoon não pensando ou falando, mas desenhando.
Quando eu fazia análise junguiana tinha a opção do desenho, da caixa de areia, mecanismos para além da fala, mas o melhor era a escrita dos sonhos justamente por ser escrita. A análise lacaniana mudou minha relação com a própria fala, mas ainda organizo melhor ou "traduzo" meus pensamentos no formato da escrita.
Enfim, o que quero dizer é que deveríamos sair da ditadura da fala e digo isso especialmente pensando nos autistas não verbais que se comunicam por outros meios. Certa vez participei de curso sobre linguística em que uma das ministrantes trouxe a questão: e se os autistas não verbais se estruturam através da linguagem matemática? Isso foi uma explosão no meu mundinho linguístico. E é isso, dentre todos os diversos tipos de linguagem, por que a fala ainda é tão hierquicamente preferida?

"Não acredito em nada, mas eu leio tudo." - Wellington Zangari Esse semestre estou novamente fazendo um curso na USP com...
23/08/2026

"Não acredito em nada, mas eu leio tudo." - Wellington Zangari

Esse semestre estou novamente fazendo um curso na USP com o professor Zangari, dessa vez sobre psicologia anomalística e confesso que estou me sentindo de volta aos anos 90 quando esse tipo de coisa era bem na moda com Arquivo X na Bandeirantes, Padre Quevedo na Globo ou o Programa Mistério na Manchete. Na época eu era meio Fox Mulder, mas hoje sou total Dana Scully.
Essa semana o Zangari indicou dois artigos interessantes de uma psicanalista que tratam da intuição, esse mecanismo tão vilipendiado pela psicanálise (exceto Bion) só porque Jung foi lá e desenvolveu na sua teoria primeiro.
Amina explora a noção de intuição que frequentemente é substituída ou confundida com empatia, contratransferência ou insight. A autora discute os riscos técnicos de cada extremo, ignorar essas captações privando o paciente de reconhecer seus próprios recursos versus confirmá-las sem cautela violando o sigilo ou fomentando fantasias de onipotência. Propõe que a intuição seja tratada como instrumento técnico legítimo, a ser usado com prudência.
Jung define a intuição como uma função básica que se ocupa de transmitir percepções através do inconsciente. Nela, qualquer conteúdo se apresenta como um todo coeso, sem que a pessoa consiga dizer ou averiguar imediatamente como esse conteúdo se formou. Por isso seus conteúdos têm o caráter do que está dado, daí a sensação de segurança e certeza que acompanha o conhecimento intuitivo, o que levou Spinoza, segundo Jung, a considerar a scientia intuitiva como a forma suprema de conhecimento. Ou seja, é uma função como qualquer outra, não tem nada de paranormal nisso como o titio Freud tinha tanto medo do que saía da cabeça do Jung.

MAGGI PICCINI, Amina. Intuição: lacuna teórica na psicanálise. Revista Brasileira de Psicanálise, São Paulo, v. 50, n. 1, p. 158-182, 2016.

MAGGI PICCINI, Amina. Intuição: lacuna técnica na psicanálise. Revista Brasileira de Psicanálise, São Paulo, v. 50, n. 1, p. 183-204, 2016.

Hoje é dia do Folclore e basicamente fui alfabetizada com esses livros sobre contos folclóricos brasileiros que tinha na...
22/08/2026

Hoje é dia do Folclore e basicamente fui alfabetizada com esses livros sobre contos folclóricos brasileiros que tinha na minha casa nos anos 80. Tinha muito medo das estórias, ao mesmo tempo que ficava absolutamente fascinada. Meus primeiros contatos com o horror como arte foram esses livros e o professor Astromar de Roque Santeiro.
Curiosamente é uma data bem colonial já que foi instaurada porque o inglês William John Thoms cunhou o termo folk-lore nessa data em 1946, ao mesmo tempo que é cria nacionalista da ditadura.
Curiosamente também acho o Dia do Saci no 31 de Outubro bastante colonial porque é em função de outra data, sem falar que um pouco machista já que é dia do Samhain, o sabá de bruxas mais importante do ano e sabemos o quanto as bruxas são importantes para as mulheres, querer tirar o brilho delas na sua data é só machismo mesmo e não tem nada de decolonial. Custava colocar o dia do Saci em outra data?

"Nunca mais tive amigos como os que tinha aos 12 anos. Jesus, será que alguém tem?"Quando tinha cerca de 20 anos eu cost...
22/08/2026

"Nunca mais tive amigos como os que tinha aos 12 anos. Jesus, será que alguém tem?"

Quando tinha cerca de 20 anos eu costumava pensar muito nessa frase de Conta Comigo que está completando 40 anos hoje. Pensava no fato de não concordar com ela, pois fiz grandes amigos na época da minha primeira graduação que estiveram em muitas "aventuras" tanto quanto minhas amigas de infância e adolescência, para não dizer mais selvagens.
A questão é que por mais que continuamos com essas amizades por décadas, o mundo "adulto" tende a afastá-las, especialmente por conta como a monogamia se estrutura em nossa sociedade. O amor romântico, tal como narrado culturalmente, hierarquiza os laços afetivos, colocando o par no topo e todos os demais vínculos, amizade, família, comunidade, como secundários, administráveis em função do que sobra. O tempo e o cuidado que antes circulavam entre amigos passam a ser drenados para sustentar a relação amorosa, que socialmente é lida como a conquista mais legítima de realização afetiva adulta.
Vale notar que esse afastamento não é uma fatalidade da paixão em si, e sim de um certo modelo de amor romântico, fusional, exclusivista, que trata o outro como completude. Relações que sustentam algum grau de separação, que reconhecem a alteridade do parceiro sem exigir fusão total, tendem a preservar mais espaço psíquico para os outros vínculos.
Freud ao discutir os estados amorosos descreve como o objeto amado pode vir a ocupar o lugar do ideal do eu, um deslocamento em que o sujeito se coloca a serviço do outro, muitas vezes empobrecendo o próprio eu em favor da idealização do parceiro. Esse processo tende a ser autocentrado, o casal cria uma espécie de mundo fechado, uma bolha que não apenas exclui terceiros mas os interpreta como intrusão. Não é incomum que amizades antigas passem a ser sentidas, pelo próprio sujeito apaixonado ou pelo parceiro, como ameaça ao pacto amoroso, sobretudo quando essas amizades guardam memórias, intimidades ou afetos anteriores à relação.
Por isso hoje entendo muito mais a frase do filme, mesmo tendo encontrado grandes amigos em todas as fases da minha vida.

Esse fim de semana minha aula sobre autoras armênias foi sobre Silva Kaputikyan, é bem difícil encontrar traduções dela,...
22/08/2026

Esse fim de semana minha aula sobre autoras armênias foi sobre Silva Kaputikyan, é bem difícil encontrar traduções dela, mas encontrei très coletâneas de poesia armênia em que há alguns poemas e que inseri nas imagens.
Sua poesia é essencialmente lírica, marcada por temas como o amor, a maternidade, a identidade nacional armênia e a memória do genocídio armênio, sua obra mais conhecida, "Palavras para meu filho", toca justamente nessa ferida coletiva. Apesar de ser membro do Partido Comunista, Kaputikyan foi uma defensora pública das causas nacionais armênias, participando ativamente do movimento por Nagorno-Karabakh nas décadas finais da URSS. Já nos anos 2000, chegou a devolver uma medalha estatal em protesto contra a repressão a manifestantes pelo governo armênio.
Uma curiosidade que aprendi na aula foi que Silva era muito amiga do Parajanov, ambos pertenciam ao mesmo círculo de intelectuais e artistas armênios da era soviética, que sofreu de perto a perseguição do regime a vozes não alinhadas, o próprio Parajanov foi preso mais de uma vez sob acusações fabricadas. Inclusive Silva escreveu uma carta aberta ao governo soviético quando ele foi preso em 1973 e participou do documentário em sua homenagem em 1992.

21/08/2026

20/08/2026

O dia nacional do orgulho lésbico comemorado hoje marca uma manifestação ocorrida em 19 de agosto de 1983, no Ferro's Ba...
20/08/2026

O dia nacional do orgulho lésbico comemorado hoje marca uma manifestação ocorrida em 19 de agosto de 1983, no Ferro's Bar, no centro de São Paulo, durante a ditadura militar.
O bar era um ponto de encontro tradicional da comunidade LGBT, mas os donos passaram a proibir a distribuição do "ChanaComChana", boletim produzido pelo Grupo Ação Lé***ca Feminista (Galf) que discutia temas como legalização do ab**to, relacionamentos entre mulheres e a perseguição policial contra lé***cas. Um grupo de mulheres lé***cas, sob liderança da ativista Rosely Roth, realizou um protesto contra a proibição da distribuição desse jornal.
O ato ficou conhecido como a primeira grande ação de mulheres lé***cas no país, dando origem à data comemorada em 19 de agosto, e acabou sendo apelidado de "Stonewall brasileiro" em referência ao protesto de 1969 em Nova York que originou o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Como resultado direto, o dono do bar garantiu que não interferiria mais na venda do boletim.
A data só foi oficialmente reconhecida como Dia do Orgulho Lésbico pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo em 2008, décadas depois do episódio.
Vale notar que existe outra data próxima, o Dia Nacional da Visibilidade Lé***ca (29 de agosto), que remete ao 1º Seminário Nacional de Lé***cas (Senale), ocorrido em 1996, as duas às vezes são confundidas, mas marcam episódios distintos da militância lé***ca brasileira.
Por isso escolhi vinte filmes de protagonismo lésbico para indicar, vale lembrar que escolhi os que mais gosto e não necessariamente os mais famosos, e também foi meio de sopetão sem pensar muito, vai que esqueci algum que amo (lembrei de A cor púrpura só depois de fechado o carrossel).

Endereço

Santa Cruz Do Rio Pardo, SP

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