14/02/2021
Talvez já estejamos suficientemente indigestos com tamanha ordem e tamanha ordenação do desejo em torno de uma terceirização do desejo em torno da representação.
Cabe-nos perguntar: "que ordem é esta?"
Por vezes o Estado incita o CAOS deliberado para re-pastorear o rebanho numa ordem estabelecida e desejada pelo Estado.
E o rebanho tem seu desejo capitaneado a acreditar que pode desejar apenas nos limites do pasto.
Certos segmentos dizem: "precisamos nos organizar".
Quiçá já estejamos bem "organizados". Tão organizados que quase nada escapa, foge, insurge.
Pouco se vê na esfera do imprevisível, do novo, do criativo.
As ferramentas que temos já enferrujaram e estamos novamente no sentimento mais dócil dos resquícios da nossa acomodação medieval: a esperança.
Determinados "messias" virão nos salvar.
De um lado com arma nas mãos, do outro lado um está envolto por grades.
Enquanto isso, neguemos a vida na Terra, neguemos nossa capacidade de acontecer.
Vamos apenas nos curvar e rezar para ele de 4 em 4 anos.
Confessar-nos numa urna e esperar que a justiça divina seja feita pelo salvador.
O ofício mais importante do pastor é conter as fugas, fazer das multiplicidades nômades dos bichos (poderia se dizer dos animais em seu devir-animal) um rebanho na repetição dos passos programados e controlados.
No maior clima de uma sofisticação de another brick in the wall, hoje não precisamos mais da velha escola, da prisão, do hospital, do quartel, cada um carrega um panóptico na barriga ou no flash do celular.
Nossa organização é esperada, é desejada, é produzida e programada.
Nossa desorganização não. Talvez isso não seja palatável a todas(os) pela demonização da palavra CAOS, pelas capturas que ela sofre e por se afastarem cada vez mais do sentido esquizopoiético de si, da criação do desvio, das cisões, das fissuras
Nossa desorganização é des-cabida, não espera sem des-esperar, recusa o ego do "EU SOU" e diz na maneira mais desindividualizada e multitudinária possível: Anota aí, eu sou ninguém!
Afinal, o que é o Estado senão a produção contínua dos ninguéns de Galeano?
O que é mais lucrativo do que produzir um ninguém, dizer que ele pode ser alguém por meio da produção e do consumo e a cada passo a frente, colocar 10 passos atrás!?
Des-organizar talvez seja a maneira mais furtiva de fazer fugir nossa força de insurgência.
Afinal, volta-me o questionamento:
O que a ordem faz acontecer em nós?