29/01/2026
Ainda era outubro de 2025 quando a vida não bateu, mas arrombou a porta do meu consultório.
E logo depois, a da minha casa..
A vida tem dessas violênci4s silenciosas: nos revira por dentro, nos desorganiza, nos deixa sem línguagem. A gente tenta entender, culpa o tempo, sente raiva do que escapa ao controle… até perceber que permanecer aí também dói demais.
Eu, que sempre me vi cuidando, sustentando, resolvendo, me vi paralisada diante da perda de quem eu amo tanto
Faltou palavra..
E quando a palavra falta, o corpo fala
Vieram o cuidado dos outros, o colo, o carinho dos meus pacientes, pequenas presenças que, aos poucos, foram devolvendo ar
Cresci em uma família onde honestidade e respeito nunca foram discurso, mas prática!
Fui criada por mulheres fortes e independentes.
Minha mãe e minha tia conheceram cedo demais a teoria do trauma na própria pele, com a perda abrupta e precoce da minha avó
E por isso sempre ouvi:
“Eu te criei para o mundo, mas tu sempre pode voltar para casa.”
Depois que mudei de cidade, essa frase ganhou corpo, chão e sentido
E foi por isso, tia, que precisei registrar esse amor na pele, como quem escreve um lugar seguro onde o corpo sempre pode retornar
Ferenczi dizia que o mais traumático não é o evento em si, mas a negação do sentir e a solidão.
E assim, entre as lágrimas e os sorrisos, sigo vivendo essa psicanálise no corpo, reconhecendo que nunca estive só: sempre tive testemunhas amorosas da minha história (e que privilégio)
E Freud estava certo:
“Como f**a segura uma pessoa quando sente que é amada.”
É assim que me sinto contigo, tia: amada por quem eu sou, sem tentativas de correção, sem julgamento. Tu me ensinou que o amor verdadeiro é leve e livre (e as vezes exigente)
Eu te carrego comigo
Na forma como cuido dos meus pacientes
De mim
Da nossa família
Te carrego no chimarrão quente, no jeito carinhoso de cozinhar, na maneira de amar
E a vida é mesmo muito louca, né?
Hoje choro de saudade de ti e, ao mesmo tempo, celebro o primeiro aninho da minha afilhada
Com a certeza de que as mulheres da nossa família não são fortes porque suportam tudo
mas porque, apesar de tudo, tentam amar