07/05/2026
Na madrugada de hoje se anunciou em Santa Maria o tal vento norte. Desde muito pequena ouvia os adultos falarem sobre os efeitos do fenômeno na vida das pessoas, desencadeando uma inquietação inexplicável. Sempre achei que esse era um saber universal, até entender que é algo muito característico de algumas regiões do Rio Grande do Sul, especialmente no centro do estado. Em termos gerais, o vento norte se manifesta quando há a chegada de uma massa de ar quente vinda das regiões centrais do Brasil e que, ao chocar-se com o ar frio, dá origem a rajadas intensas e quentes. O curioso é que o vento norte antecede a chuva e, por fim, a chegada de uma frente fria. Além disso, o vento norte se intensifica em áreas com descontinuidade na topografia, como é o caso de Santa Maria, cidade abraçada por morros. É um vento estranho, que nos faz duvidar do controle do próprio corpo, como se estivéssemos no umbigo de um redemoinho. Nessa história toda, já adulta, adotei as histórias que ouvia quando criança e me percebi tomada pela sensação sem nome que passa quando o vento sopra. Queria dizer para Veríssimo que não é só o tempo que ele maneia. E aí hoje, dia de vento norte no coração do estado, enfrentei o dito cujo e saí na rua, aceitando a perturbação que ele impunha sem pedir licença. Era roupa voando, cabelo sendo engolido e essa inquietação sem motivo brincando de esgarçar os contornos da pele (uma visão nada glamurosa, diga-se de passagem). O curioso é que me caiu a ficha de que a psicanálise tem um pouco dessas de não fechar as janelas pra ventania, pra esse estranhamento que a corrente de ar causa na gente. Se possível, recomendamos que se escancarem as janelas. O vento norte tem esse quê excessivo, desagradável, é uma lembrança constante de temos muito menos controle do que supomos. Como se, assim como uma análise, nos desse notícias de alguma dimensão menos domesticada do eu.