10/05/2026
Dizem que ser mãe é padecer no paraíso, mas a verdade é que ser mãe é, antes de tudo, um ato de presença e transcendência.
Minha jornada com a maternidade foi traçada por quatro caminhos. Dois deles, embora curtos, foram profundos; dois filhos que habitaram meu ventre, mas que a vida não me permitiu carregar no colo ou ninar. Eles não têm rostos que eu possa recordar, mas possuem um lugar eterno em minha história. Foram o início da minha compreensão sobre o que é amar sem possuir.
Depois vieram o Eduardo e a Júlia. Com vocês, tive o privilégio sagrado de atravessar todos os portais: o peso da gestação, o milagre do nascimento, a descoberta da infância, a turbulência da adolescência e, agora, a solidez da vida adulta.
Maternar é o único exercício onde o sucesso é, paradoxalmente, tornar-se “desnecessária”. Vi minha capacidade de controle se reduzir a cada ciclo, aprendendo a soltar as mãos para que vocês pudessem caminhar com as próprias pernas.
Maternar solo me exigiu ser muitas em uma só. Na dureza do divórcio, as demandas da vida muitas vezes me roubaram a “mãe em essência” para me transformar na provedora, na protetora, na gestora do caos. Assumi papéis que não eram meus para garantir que nada lhes faltasse, muitas vezes sacrificando a suavidade pelo rigor da sobrevivência.
Hoje, olhando para os adultos que vocês se tornaram, compreendo que a vida me ofertou a missão mais bela e, ao mesmo tempo, a mais dolorida. Foi um lapidar constante.
Sinto que estou prestes a entrar em um merecido modo de repouso. O peso das responsabilidades mais densas começa a dar lugar a uma nova expectativa. Olho para o horizonte e vejo uma nova etapa se desenhando: o doce e leve papel de ser avó.
Se como mãe eu fui o porto seguro em meio à tempestade, como avó, quero ser a brisa mansa. Deixo para trás o cansaço da jornada solo e me preparo para colher os frutos do amor que plantei, com a paz de quem sabe que, apesar de todos os desafios, a missão foi cumprida com o coração transbordando.