04/07/2026
4DICÇÃO — "Fugir do vazio ou tentar preenchê-lo?"
Pascal escreveu, séculos atrás, que o ser humano é incapaz de ficar quieto, sozinho, em silêncio com a própria mente, e que por isso inventamos distrações de todo tipo, só para não encarar esse vazio de frente.
Acho que ele descreveu, sem saber, boa parte do mecanismo da a-dicção.
Não estou falando só de substância. Trabalho compulsivo, redes sociais, comida, $exo, compras, até relacionamentos usados como "anestesia", o objeto muda, mas a estrutura, muitas vezes, é a mesma: algo dentro pede silêncio, e a pessoa enche esse silêncio de qualquer coisa, contanto que não seja silêncio.
Montaigne tinha uma observação simples e devastadora sobre o hábito: ele se instala tão suavemente que, quando percebemos sua força, já não sabemos mais viver sem ele. A a-dicção raramente chega anunciada. Ela se infiltra como alívio, e só depois revela seu preço.
Freud falou em compulsão à repetição, esse retorno insistente a um mesmo padrão, mesmo quando ele machuca, porque há ali algo não resolvido que insiste em se repetir, na esperança (quase sempre frustrada) de um desfecho diferente. Lacan ia além: falava de gozo, esse prazer que não é exatamente felicidade, mas que sustenta a repetição mesmo contra a vontade consciente da pessoa.
Na clínica, uma pergunta costuma abrir mais portas do que qualquer confronto: "o que você está tentando não sentir, quando recorre a isso?"
Porque tratar a dicção só pelo sintoma, tirar a substância, proibir o comportamento, sem tocar no vazio que ela tentava ocupar, é deixar a porta aberta para que outra coisa entre no lugar.
O trabalho real não é aprender a se privar. É aprender, finalmente, a ficar consigo mesmo sem precisar fugir.
Se você reconhece esse padrão, em você ou em alguém que ama, saiba que existe caminho de tratamento sério, sem moralismo e sem julgamento. Manda mensagem ou agenda uma conversa inicial pelo link na bio.
marcelomagoga.com