19/03/2020
O respeito, um ingrediente que poucas vezes é validado, mas a sua falta muda o sabor drasticamente. Acredito que é subestimado enquanto elemento nas relações. Recorrente como tema, e escasso como exercício no cotidiano dos nossos encontros.
A consideração – por aqueles que vieram antes de nós, que estão ao nosso lado e os que virão depois – nos diz respeito. E aqui não me refiro a um processo moral.
Uma relação sem abertura para olhar o outro de novo se dá no passado, no que já foi. E o espaço para o que se é no presente? Muitas amizades, namoros e outras relações são finalizadas por pessoas que utilizam lentes de outros tempos. Qual foi a última vez que você se atentou as feições das pessoas que ama?
Queremos ver tudo ao mesmo tempo. O amigo ao nosso lado sente a desconsideração, porque a sua conversa disputa a atenção com a tela do celular. Vemos fragmentos, que revelam nosso comportamento diante do outro.
Um olhar apressado capta poucos detalhes. O represamento no passado perde a novidade. Falamos que já vimos o filme antes do outro terminar de contar como foi a experiência disso para ele. Perdemos a oportunidade de olhar o filme de novo, por outros ângulos.
O desrespeito pelo tempo com outro. Não me refiro aos imprevistos que fazem parte da vida e nos solicitam flexibilização. Falo de como não nos atentamos ao quão valioso é o tempo que compartilhamos na presença de alguém. Se soubéssemos qual seria o dia da partida de quem amamos, como seria nossa relação com o tempo conjunto?
Quando consideramos nossa história como humanidade, respeitamos os outros que vieram antes de nós. Olhamos para trás numa conversa com o presente e integramos seus ensinamentos. Quando estamos atentos aos que caminham ao nosso lado, sentimo-nos acompanhados, tornamos a viagem mais leve. Quando cuidamos dos outros que virão depois de nós, respeitamos a vida, que é um processo.
Olhando as redes que nos suportam, com calma e por vários ângulos, podemos desenvolver nossos próprios suportes internos. Algumas vezes, somos abrigo para o diferente. Em outras, somos presenteados com o respeito. Encontramos refúgio na relação, que também nos permite ir ao mundo, paradoxalmente.