14/02/2023
"Alguém me ajuda, por favor, estou desesperada" foi uma frase recolhida dentro de uma comunidade pública de apoio ao parto humanizado e à gestantes em rede social. O nível de desamparo que a gestante expressa não é nem um pouco incomum e escolhi essa frase por ela ser bastante emblemática do sentimento que muitas gestantes compartilham nas redes e que acolhemos na clínica. Vivemos em uma sociedade em que basta um clique para acessarmos qualquer tipo de informação que na teoria poderia acalmar as angústias e medos de uma gestante, mas essa nao é realidade. A gestação é uma experiência de transformação radical e em uma sociedade patriarcal em que os direitos reprodutivos não estão garantidos e o acesso á saúde vem sendo precarizado, a realidade é que as gestantes estão cada vez mais desprotegidas e perdidas em uma avalanche de informações e pressões de ordem moral(vale lembrar que a discussão sobre o estatuto do nascituro ressurgiu com força nos últimos anos, e esse estatuto ameaça os direitos reprodutivos de gestantes). De um lado temos uma cultura médica que desautoriza a gestante e objetif**a o corpo grávido (ao ponto de empoderar práticas criminosas e violências obstétricas como as do médico que estuprava gestantes durante sedação para cirurgia). Do outro, temos uma cultura do parto humanizado que acabou sendo cooptada por uma lógica de mercado e que muitas vezes acaba criando um ideal de parto e expectativas para um parto "espetáculo", parto "performance" que gera muitas frustrações e mais desamparo. Na clínica com gestantes, a nossa escuta precisa estar preparada para acolher essas angústias de forma a auxiliar a gestante a elaborar as transformações e expectativas, consciente dos seus direitos reprodutivos e limitações que a experiência de gestar pode implicar.