13/06/2026
Existe algo curioso em certas formas de amor. Elas oferecem ao sujeito um lugar privilegiado. Fazem com que ele se sinta único, diferente, destinado a algo maior. À primeira vista, parece um presente. E talvez seja. O problema é que alguns presentes vêm acompanhados de uma dívida.
Desde muito cedo, algumas pessoas aprendem que não basta existir. É preciso corresponder a uma imagem. Ser inteligente. Ser admirável. Ser diferente dos demais. Como se houvesse uma promessa silenciosa depositada sobre elas.
E não é difícil entender por que isso seduz. Quem não gostaria de ocupar um lugar especial?
Mas a vida possui um certo talento para desorganizar idealizações. O amor falha,o trabalho decepciona, os relacionamentos produzem frustrações, o corpo muda, o reconhecimento nunca parece suficiente. E o sujeito se vê diante de uma tarefa impossível: sustentar para sempre uma imagem que nunca foi inteiramente sua.
Lacan nos lembra que nos constituímos a partir do desejo do Outro. Talvez por isso uma das experiências mais difíceis da vida seja perceber que aquilo que desejamos nem sempre coincide com aquilo que esperavam de nós.
Há quem passe anos tentando confirmar uma promessa que nunca fez. Há quem transforme cada conquista numa tentativa de provar o próprio valor. Há quem viva perseguindo uma versão idealizada de si mesmo, sem perceber que a linha de chegada muda toda vez que parece próxima.
Porque o problema da idealização não é apenas a expectativa. É que ela frequentemente torna impossível qualquer satisfação. Nada parece suficiente. Nenhum amor. Nenhum trabalho. Nenhum reconhecimento.
Talvez uma parte importante da análise esteja justamente aí: na possibilidade de deixar cair certas imagens sem sentir que algo essencial foi perdido. Porque, às vezes, o sofrimento não nasce da falta de amor. Nasce do peso de ter que continuar sendo aquilo que um dia disseram que você era.
Se um desejo for, faça análise/terapia. 🌷
Gustavo Sakata
Psicólogo | Psicanalista
CRP:14/06882-7