06/08/2026
Entre a raiva e o prazer existe um som que o mundo nunca soube escutar.
Há gritos que parecem de dor e anunciam um nascimento, o parto.
Há gemidos que parecem de prazer e carregam séculos de luto.
Nos ensinaram a endurecer o corpo para sobreviver. A transformar vigilância em identidade. A acreditar que permanecer em guerra é a única forma de existir.
Mas como descansar quando o racismo invade até os sonhos?
Como g***r a própria existência quando o corpo nunca foi autorizado a relaxar?
Em A Cor do Inconsciente (o livro de Isildinha Baptista Nogueira), somos lembrades de que o narcisismo colonial também nos atravessa. Ninguém está imune. O opressor não vive apenas fora de nós; ele aprende a falar pela nossa boca, a julgar pelos nossos olhos, a dividir pelas nossas mãos.
E então, entre semelhantes, nos ferimos.
Disputamos escuta, legitimidade, protagonismo.
Repetimos a lógica que juramos combater.
Até quando ocupar o lugar do opressor parecerá mais seguro do que construir outro mundo?
Este é um convite para atravessar.
Transformar o grito em linguagem.
A raiva em movimento.
O prazer em território político.
O corpo em memória viva.
Um manifesto onde todo sentimento é bem-vindo — não para nos aprisionar, mas para reorganizar nossa mente, nosso espírito e nossa forma de estar em comunidade.
Porque talvez a revolução não aconteça apenas quando gritamos.
Talvez ela comece quando finalmente conseguimos respirar juntes.
Entre os gritos de prazer e os gemidos de dor, ou entre os gemidos de prazer e os gritos de dor, existe um portal.
E do outro lado dele não está a perfeição.
Está a possibilidade de nos reencontrarmos inteiras, inteires.
Sem reproduzir aquilo que tentava nos destruir.
A ciência produziu descobertas fundamentais. Mas as instituições científicas também nasceram em contextos marcados por relações coloniais e, muitas vezes, deslegitimaram saberes ancestrais, populares e tradicionais.
Descolonizar o conhecimento não significa abandonar a ciência. Significa ampliar quem pode produzir conhecimento e o que reconhecemos como tecnologia de cuidado.