04/06/2026
O que mais me chocou nessa notícia não foi apenas a tragédia.
Foi a reação das pessoas.
Quatro crianças morreram.
Um bebê de 11 meses.
E uma parte dos comentários não perguntava sobre as crianças.
Perguntava:
"Cadê o pai?"
E aqui existe uma diferença que parece que muita gente desaprendeu.
Explicar não é justificar.
Entender não é absolver.
Se o pai era ausente, isso é grave.
Mas a ausência de responsabilidade de um não elimina a responsabilidade do outro.
Uma irresponsabilidade não anula a outra.
O que me preocupa é que estamos vivendo uma cultura que parece incapaz de dizer:
"Isso foi errado."
Precisamos imediatamente encontrar uma justificativa.
Uma narrativa.
Uma vítima.
E foi aí que encontrei comentários chamando essa mãe de "diva".
Dizendo que ela estava cansada.
Que merecia viver.
Que cansou de aceitar migalhas.
E sinceramente?
Talvez essa seja uma das consequências mais perigosas da psicologia do ego.
Quando o desejo passa a ocupar o lugar da responsabilidade.
Quando a felicidade individual passa a justificar qualquer escolha.
Quando "eu mereço" se torna mais importante do que "eu devo".
A tragédia apenas expõe de forma extrema algo que acontece todos os dias em escala menor.
"Faça o que te faz feliz."
"Você não deve nada a ninguém."
"Priorize você."
"Viva sua vida."
Frases que parecem inofensivas.
Mas que, levadas ao extremo, ensinam pessoas a fugir das consequências dos próprios atos.
Nós criamos uma cultura em que todo mundo aponta narcisismo nos outros.
Mas talvez estejamos vivendo algo ainda maior:
um narcisismo social.
Onde a própria vontade se tornou o valor supremo.
Onde sentimento virou álibi.
Onde responsabilidade virou opressão.
E onde os mais frágeis acabam pagando a conta.
Porque quando o "eu" se torna o único deus, sempre haverá vítimas no altar.